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"É da nossa conta": TCEMG realiza sua 2ª Semana do Orgulho LGBTQIAPN

23/06/2026

Um dos paineis do evento debateu acolhimento familiar - Foto: Hernando Garcia/TCEMG

A Constituição Federal de 1988 traz como princípio basilar a dignidade da pessoa humana (Art. 1º) e a proibição de qualquer forma de discriminação (Art. 3º) como garantias fundamentais. Alinhado a esses preceitos, o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG) promoveu, no dia 23 de junho, um evento especial em celebração ao Dia do Orgulho LGBTQIAPN+. Realizado no Auditório Vivaldi, o encontro teve como tema “Nascer, crescer e envelhecer: vivências da população LGBTQIAPN+”, propondo-se a ir além de uma data comemorativa para consolidar um espaço de escuta, reflexão e troca de experiências. 

As atividades do dia começaram com um momento de acolhimento e coffee break, seguido pela abertura institucional, coordenada pela drag queen e ativista Nickary, que marcou o compromisso do Tribunal com as pautas de diversidade, inclusão e promoção de direitos no setor público. O TCE é um importante indutor de políticas públicas, portanto, é de responsabilidade dele (e de outras instituições públicas) garantir, por lei, a proteção ((Lei nº 7.716/1989) e inclusão dessas populações marginalizadas. Como apontou o conselheiro-presidente Durval Ângelo, “promover a diversidade não é questão de ideologia [...], não é um favor, é cumprir o que é determinado pela Constituição”. 

Um dos destaques da manhã foi o painel de letramento LGBTQIAPN+. Mediado pelo diretor de Planejamento e Gestão Estratégica, Alex Lopes, o debate contou com participação de Lucas Dantas, artista, ativista e pesquisadora LGBTI+, que discutiu a história e a presença de pessoas queer no Brasil. Sua fala tratou de suas experiências enquanto pessoa não-binária e a articulou com as resistências e violências vivenciadas por todos que não correspondem às expectativas da sociedade. O objetivo foi desconstruir preconceitos e fortalecer práticas mais respeitosas no dia a dia, especialmente dentro das instituições públicas. 

Na sequência, a programação tratou da saúde da população LGBTQIAPN+, jogando luz sobre o acesso aos serviços de saúde, o cuidado integral e os desafios históricos enfrentados nesse campo. O médico Rafael da Silva Pereira, convidado para a roda de conversa, auxiliou na construção do Núcleo de Referência à Saúde LGBTQIAPN+ de Betim. O médico destacou a importância de se combater estereótipos que atrelam infecções sexualmente transmissíveis à homossexualidade. Segundo ele, o preconceito representa um risco de vida para essas pessoas, devido à negligência médica que deriva dele. 

Envelhecimento, Acolhimento e Direitos Humanos 

O envelhecimento também ganhou protagonismo no auditório. O filósofo, pesquisador e ativista Leandro de Paiva tratou da visibilidade, a dignidade e os direitos na terceira idade para o público LGBTQIAPN+ — um assunto ainda pouco discutido socialmente, mas considerado de extrema relevância pelos presentes. Ele apontou o preconceito enfrentado pelos idosos LGBT, muitas vezes rejeitados por seus pares mais jovens. Além disso, para o pesquisador, essas questões estão, também, intimamente ligadas às questões de saúde. Problemas de saúde mental, por exemplo, afligem em especial esse recorte da sociedade. 

Em outro momento, o servidor recém-empossado Andrew Carl, a primeira pessoa trans aprovada e empossada num concurso por meio do sistema de cotas no TCEMG, e a ativista Cristina Gouveia de Figueiredo, mãe de Sol, um homem trans que se assumiu aos 12 anos, engajaram em um debate emocionante a respeito da importância do acolhimento familiar para pessoas queer. A fala de ambos foi seguida por um discurso de Anna Tulie, consultora política e empresarial, que apontou a importância de espaços como o TCE pautar políticas que insiram cada vez mais membros da comunidade nos espaços públicos e na vida cidadã. 

O encerramento do encontro foi marcado pelo sorteio do livro Translúcida, que expõe fotografias de pessoas trans encarceradas feitas pelo ministro do STJ Sebastião Reis Júnior, e uma apresentação cultural do Coletivo Ballroom Minas Gerais, que celebrou a arte como forma de expressão, resistência e afirmação de identidade. Segundo a organização, mais do que uma iniciativa institucional, o evento buscou contribuir para a formação de servidores e cidadãos mais conscientes, empáticos e preparados para lidar com a diversidade no cotidiano, visando a construção de uma sociedade mais justa e inclusiva. 

Realidade

A premissa do evento partiu do fato de que as vivências da população LGTBQIAPN+ não podem ser vistas de forma isolada, pois atravessam toda a sua trajetória, desde o nascimento até a velhice, em todos os contextos sociais. Essa necessidade de debate é reforçada por dados do Atlas da Violência 2025, publicado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, que revelam um salto na violência contra a população LGBTQIAPN+ de 2022 para 2023. Os registros no sistema de saúde cresceram 35% para homossexuais e bissexuais, e 43% para pessoas trans e travestis — com maior aumento entre homens trans, embora as mulheres trans continuem sendo a maioria esmagadora das vítimas. 

O estudo aponta, ainda, que a maior parte das pessoas agredidas tinham entre 10 e 29 anos. Essa maior concentração de ataques entre a juventude reflete a realidade da violência no Brasil e evidencia um cenário trágico: para pessoas LGBT, o direito de existir e de envelhecer é sistematicamente questionado. É importante salientar, nesse contexto, que o Brasil ainda é o país que mais mata membros dessa comunidade no mundo. Segundo o IBGE, a expectativa de vida média dos brasileiros é de 76 anos, enquanto a de travestis e transexuais não supera os 35. 

Nesse sentido, o evento assume um papel central na promoção dos direitos das minorias sociais. Em sua segunda edição, ele se institucionalizou e, junto da aprovação das cotas trans no concurso para servidores e servidoras, fez da Corte de Contas mineira referência entre os tribunais do Brasil. A iniciativa foi agraciada com o Prêmio Comunica 2025, na categoria Comunicação Interna, e com o 2° lugar na Feira de Cases da 15° Redes WeGov. 

Já o "É da nossa conta" é um lema e uma série de campanhas institucionais do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais focadas em controle social, fiscalização e conscientização cidadã. Garantir a implementação de políticas públicas para a população LGBTQIAPN+ “é da nossa conta”. 

Veja, abaixo, fotos do evento. 

Dia do Orgulho LGBTQIAPN