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As terras raras e o tabuleiro geopolítico contemporâneo; o lugar do Brasil e de Minas Gerais neste novo jogo de poder

22/05/2026

O painel Minerais críticos e o papel dos Tribunais de Contas, mediado pelo vice-presidente do TCE Agostinho Patrus, abordou os desafios da exploração das terras raras

O debate sobre a exploração das terras raras, grupo de 17 elementos químicos metálicos fundamentais para a fabricação de componentes essenciais em smartphones, veículos elétricos, turbinas eólicas e sistemas de defesa de alta tecnologia, esteve em debate durante o X Congresso Internacional de Controle de Políticas Públicas.

O painel “Minerais críticos e o papel dos Tribunais de Contas” foi mediada pelo vice-presidente do TCEMG, o conselheiro Agostinho Patrus, e contou com a participação do assessor da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), Ronaldo Gomes Carmona, a procuradora do MPCMG, Sara Meinberg, futura procuradora-geral, e da diretora-presidente da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge), Luísa Barreto.

De acordo com Agostinho Patrus, estar atento a este debate é uma missão das Casas de Contas. “O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras, ficando atrás da China, e o estado de Minas Gerais desponta como o coração estratégico dessa nova corrida mineral e tecnológica mundial”, destacou o vice-presidente do TCEMG.

O conselheiro destacou que o Brasil começa a se movimentar para lidar com esta temática de forma apropriada, o que representa assegurar que a riqueza associada aos minerais contidos nas chamadas “terras raras” convertam-se em benefícios e melhores condições de vida para a população brasileira.

Para Agostinho Patrus, papel das Casas de Contas é essencial para assegurar que a exploração de terras raras se convertem em desenvolvimento para as populações locais - foto: Thiago Guará

“O Congresso Nacional iniciou este debate, cumprindo sua missão institucional. O texto que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, com foco na exploração de terras raras, está sob análise do Senado Federal após ser aprovado na Câmara dos Deputados”, destacou. Identificada originalmente na Câmara como PL 2.780/2024, a matéria teve regime de urgência impulsionado pelas discussões globais sobre transição energética e segurança geopolítica.

Visões compartilhadas

Ronaldo Carmona, Luísa Barreto e Sara Meinberg apresentaram suas contribuições, ainda que a perspectiva dos três seja muito distinta. Carmona apontou o movimento empreendido pelo governo brasileiro e as estratégias encaminhadas a partir da Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) para fomentar pesquisas para o processamento dos metais raros no Brasil. A Finep é uma empresa pública brasileira vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a principal agência de fomento dedicada a impulsionar o desenvolvimento científico, tecnológico e a inovação em todo o país.

Segundo Ronaldo Carmona, questões estratégicas não podem ser tratadas apenas na perspectiva do mercado - foto: Thiago Guará

“Questões estratégicas não podem mais ser tratadas apenas na perspectiva mercadológica, como se dava após a Segunda Guerra Mundial. Hoje, estamos vendo nações adotando medidas protetivas, que abandonam o ideal liberal em busca de assegurar o desenvolvimento na nova corrida de disputa geopolítica global”, afirmou. Carmona apresentou chamadas e editais que a Finep realizou e uma chamada aberta que prevê desenvolvimento de pesquisa e tecnologia a partir de terras raras.

A experiência entre a Companhia Brasileira de Metalurgia e Mineração (CBMM) e o governo do Estado de Minas Gerais foi apresentada pela diretora-presidente da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge), Luísa Barreto. Para a dirigente, representa um dos modelos de parceria público-privada mais duradouros e lucrativos do Brasil. Iniciada formalmente em 1972, a parceria foca na extração e industrialização das gigantescas reservas de pirocloro (mineral raro composto por um óxido complexo de nióbio, tântalo, sódio e cálcio) em Araxá, transformando o estado na referência global da cadeia produtiva do nióbio.

Luísa Barreto apresentou a experiência de exploração compartilhada do nióbio - foto: Thiago Guará

Luísa Barreto apresentou detalhes da gestão compartilhada da Companhia Mineradora do Pirocloro de Araxá (Comipa) entre a iniciativa privada e o governo de Minas. E ressaltou, ao apresentar como funciona a divisão da extração entre as minas da CBMM e do Estado, a relevância do debate sobre as terras raras e a busca de um modelo de exploração que assegure o desenvolvimento do estado.

Sara Meinberg apresentou como o Ministério Público de Contas pode contribuir no debate sobre as terras raras. Para a procuradora, os minerais críticos são essenciais para a transição energética, por isso, “o órgão deve atuar como um fiscal da legalidade e da governança pública, cobrando do Executivo planejamento rigoroso e transparência”, destacou.

A procuradora Sara Meinberg destacou o papel do MPC na fiscalização da legalidade e governança pública - foto: Thiago Guará

O MPC é essencial para “garantir a legalidade, a segurança jurídica e o retorno econômico-social dos incentivos e royalties vinculados à extração desses minerais críticos”, destacou Sara Meinberg. As principais linhas de atuação no estado, que é uma espécie de epicentro do debate técnico, financeiro e político, são a fiscalização de renúncias fiscais e benefícios, a regulação e uso dos royalties (CFEM) e o controle e planejamento e mitigação de riscos.

Para o vice-presidente do TCEMG, “não podemos criar, como dizem alguns, ilhas da fantasia ou de sonhos, onde nós temos uma empresa que dá resultados expressivos, mas a comunidade de seu entorno vive em uma situação de carência, de pobreza e de dificuldades”. Agostinho Patrus destacou, ao final do painel, que a competência e capacidade de trabalho serão importantes para encontrar os melhores caminhos para enfrentar os desafios que estão no horizonte.

Sobre as terras raras

As terras raras são a espinha dorsal da transição ecológica global devido às suas propriedades magnéticas e ópticas únicas, essenciais para descarbonizar a matriz energética. Elementos como o neodímio e o disprósio são as matérias-primas fundamentais para a fabricação dos superímãs permanentes de alta performance. Sem esses componentes, torna-se inviável a produção em escala dos motores eficientes que impulsionam os veículos elétricos modernos e dos geradores de grande porte que movem as turbinas eólicas.

A International Energy Agency (IEA) é a maior autoridade global sobre o tema. Em seus relatórios anuais sobre minerais críticos (The Role of Critical Minerals in Clean Energy Transitions), a agência detalha como a demanda por neodímio e disprósio deve multiplicar nas próximas décadas para abastecer a fabricação de veículos elétricos e geradores eólicos.

O estado de Minas Gerais, historicamente conhecido por suas vastas reservas de minério de ferro, consolidou-se como o principal polo estratégico para a exploração de terras raras no Brasil. O epicentro dessa nova corrida mineral está localizado no Planalto de Poços de Caldas, no Sul de Minas, região que abriga uma das maiores jazidas de argila iônica do planeta. Segundo dados de mapeamento da Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemge) e relatórios da InvestMinas, grupos globais e mineradoras estrangeiras, como as australianas Meteoric Resources e Viridis Mining, já injetaram bilhões de reais em projetos pré-operacionais na região. Fora do sul do estado, o município de Araxá também desponta no cenário nacional com reservas oficialmente catalogadas pelo governo mineiro.

Terras raras são a espinha dorsal da transição ecológica global - foto:banco de imagens