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Desenvolvimento e direitos marcam abertura de congresso internacional de controle e políticas públicas

20/05/2026

Presidente do TCEMG, conselheiro Durval Ângelo reforçou que 'democracia é entregar à população os direitos prometidos pela Constituição' - Foto: Filipe Pimenta

O Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG) e o Instituto Rui Barbosa (IRB) abriram, na noite dessa terça-feira (19/5), no The One Eventos, em Belo Horizonte, o X Congresso Internacional de Controle e Políticas Públicas. O encontro, que volta à capital mineira após mais de dez anos da primeira edição, discute a essencialidade dos tribunais de contas, o direito ao desenvolvimento, a cidadania e os direitos humanos, com o lema de “controlar para melhorar a vida das pessoas”.

Primeiro a falar, o presidente do Instituto Rui Barbosa, conselheiro Inaldo Araújo, usou lembranças pessoais, como a formação na escola pública, para abordar planejamento e propósito na atuação dos tribunais de contas. A partir dessa trajetória, resumiu sua convicção: “O Controle Externo só faz sentido quando melhora a vida das pessoas. Não basta apontar falhas, cumprir formalidades, olhar para o passado. É preciso ir além”, ressaltou.

Inaldo disse que, por trás de cada processo, há histórias concretas. “Por trás de cada conta há uma história, há sonhos; por trás de cada decisão, há vidas que esperam por dignidade, por oportunidade e por justiça”, afirmou. “E controlar não é impedir, não é paralisar. É orientar, é melhorar: melhorar políticas públicas, melhorar a gestão, melhorar a vida das pessoas”, complementou.

Ao falar do IRB, que completa 52 anos, Inaldo classificou o instituto como “a locomotiva desse trem bom que trilha rumo ao aprimoramento do controle público brasileiro”. Como ‘casa do conhecimento’ dos tribunais de contas, promovendo qualificação técnica, produção científica, troca de experiências e integração entre as cortes, contribui para resultados como auditorias “mais bem planejadas, avaliações mais consistentes e uma atuação cada vez mais pedagógica e transformadora”, disse.

Ele citou ainda a cooperação com Portugal, Espanha e países africanos de língua portuguesa, em temas como sustentabilidade, redução de desigualdades e qualidade do gasto público.

Protagonismo constitucional

Em sua mensagem, o presidente do TCEMG, conselheiro Durval Ângelo, reiterou o papel dos tribunais de contas na concretização dos direitos previstos na Constituição. Citando Gilberto Gil, disse que o Brasil não pode ser ‘uma aventura generosa, mas sempre interrompida’ e que é preciso ‘completar a construção da nação’.

“Completar a construção da nação significa justamente transformar direitos escritos em direitos vividos. A Constituição não foi concebida apenas para ser aplicada e interpretada; ela foi concebida para ser concretizada”, enfatizou o presidente do Tribunal mineiro.

Durval afirmou que concretizar a Constituição é garantir serviços públicos efetivos em áreas como saúde, educação, infraestrutura, proteção à mulher, assistência social e direitos humanos. “Democracia não é apenas o exercício do voto. Democracia é entregar à população os direitos prometidos pela Constituição”, disse. Nessa perspectiva, os tribunais de contas assumem, segundo ele, um ‘protagonismo constitucional’.

Ao tratar do reconhecimento formal desse papel, o presidente do TCEMG destacou a Emenda Constitucional nº 139/2026, a chamada “PEC da essencialidade”, que reconhece os tribunais de contas como órgãos permanentes e essenciais ao Controle Externo e veda a extinção das 33 cortes existentes no país. Para Durval, a emenda ‘representa não apenas proteção institucional, mas sobretudo reconhecimento constitucional da importância dessas cortes para a estabilidade democrática, para a governança pública e para a efetivação dos direitos humanos’.

“O verdadeiro sentido do controle não está apenas nos processos e nos relatórios. O verdadeiro sentido do controle está nas pessoas: na criança que precisa da escola funcionando, na mulher que precisa de proteção, no cidadão que aguarda atendimento digno na saúde, no jovem que sonha com oportunidade”, finalizou Durval que, no evento, representou o presidente Associação dos Membros dos Tribunais de Contas do Brasil (Atricon), conselheiro Edilson Silva.

Políticas públicas

O presidente do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), desembargador Luiz Carlos de Oliveira Corrêa Júnior, e o governador de Minas Gerais, Mateus Simões, completaram os pronunciamentos da mesa de abertura. O desembargador defendeu que o foco das políticas públicas esteja sempre em quem recebe as ações do Estado e ‘todo o caminho que vamos traçar (...) deve ter um único objetivo: que as ações estatais cheguem ao cidadão, à cidadã, na ponta, e mudem a realidade, em especial das pessoas que mais necessitam dessas mudanças”, afirmou.

Já o governador falou, dentre outros pontos, do papel do TCEMG como parceiro dos gestores e gestoras, em especial em um estado com muitos municípios de pequeno porte. “Nosso Tribunal de Contas se caracteriza, hoje, de forma muito forte, pelo espírito de colaboração, educação e formação dos municípios”, destacou. “Faz toda diferença um tribunal que ajuda a evitar que o problema aconteça, educando os nossos administradores na direção de uma aplicação mais adequada da verba pública”, pontuou Simões.

A mesa de honra ainda contou com a participação da promotora de Justiça Nádia Estela Ferreira Matheus, representando o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG); do procurador-geral do Ministério Público de Contas junto ao Tribunal mineiro (MPC-MG) e presidente da Associação Nacional do Ministério Público de Contas (Ampcon), Marcílio Barenco; do controlador-geral do Município de Belo Horizonte, Leonardo de Araújo Ferraz; e do presidente da Comissão de Orçamento e Finanças da Câmara Municipal de Belo Horizonte, vereador Diego Sanches.

Ainda integraram o dispositivo a presidente do Tribunal de Contas de Portugal, juíza conselheira Filipa Urbano Calvão; o presidente do Tribunal de Contas de São Tomé e Príncipe, juiz conselheiro Ricardino Costa Alegre; o juiz conselheiro do Tribunal de Contas de Angola, Armindo Jelembi; a presidente da Associação das Entidades Oficiais de Controle Público do Mercosul e presidente do Tribunal de Contas da Província de Formosa (Argentina), conselheira Myriam Radrizani; o presidente do Conselho Nacional de Presidentes dos Tribunais de Contas (CNPTC), conselheiro Luiz Antônio Guaraná; a presidente da Associação Nacional de Conselheiros e Conselheiros Substitutos dos Tribunais de Contas (Audicon), conselheira Milene Cunha; a presidente da Associação Nacional dos Auditores de Controle Externo dos Tribunais de Contas do Brasil (ANTC), Thaisse Craveiro; e o presidente da Associação Brasileira dos Tribunais de Contas dos Municípios (Abracom), conselheiro Nelson Pellegrino.

Participaram do evento conselheiros e conselheiras de diversos tribunais de contas, conselheiras e conselheiros substitutos, procuradoras e procuradores do Ministério Público de Contas, representantes de Cortes de Contas estrangeiras, auditoras e auditores de Controle Externo, prefeitas e prefeitos, presidentes de câmaras, vereadoras e vereadores, integrantes das forças de segurança, da Justiça Militar e da Justiça Federal, além de servidoras e servidores públicos, pesquisadoras e pesquisadores, professoras e professores, e estudantes.

Direito ao desenvolvimento

Após a solenidade de abertura, o congresso teve início com a palestra magna “Direito ao desenvolvimento no novo contexto econômico: o papel dos Tribunais de Contas”, conduzida pela presidente do Tribunal de Contas de Portugal, juíza conselheira Filipa Urbano Calvão. Ela lembrou que, durante décadas, desenvolvimento foi associado quase exclusivamente a crescimento econômico, medido por produção e investimento, visão que se revelou limitada.

Segundo Filipa, o verdadeiro progresso não pode ser medido apenas pela acumulação de riqueza, mas também pela ampliação das capacidades concretas das pessoas, como acesso à educação, saúde, justiça, proteção social, participação cívica e igualdade. Nesse quadro, a qualidade das instituições públicas passa a ser condição para o desenvolvimento. “Não existem garantias de desenvolvimento sem instituições sólidas, capazes de criar previsibilidade, transparência e mecanismos de controle e responsabilização”, afirmou.

Ela destacou que o novo contexto econômico é marcado por maior complexidade – tecnológica, financeira, social e ambiental – e que isso reforça o papel das instituições de controle, supervisão e avaliação. E, nas democracias, a confiança institucional surge como elemento central, combinando os pilares da previsibilidade, transparência e Controle Externo independente.

“Sem confiança, nenhuma política pública é plenamente eficaz”, disse. Ao realizarem fiscalizações com rigor técnico e independência e ao emitirem recomendações, os tribunais de contas contribuem para a credibilidade das instituições que acompanham e para reduzir a distância entre cidadãos e Estado.

“A boa gestão financeira não é apenas uma questão técnica; é condição institucional para a concretização dos direitos dos cidadãos”, explicou. Para ela, os tribunais de contas ocupam um “lugar discreto, mas estrutural” na arquitetura do Estado de Direito contemporâneo, com relevância que não depende da visibilidade, mas da capacidade de estabilizar, racionalizar e dar confiança à ação pública.

A presidente do Tribunal de Contas de Portugal, Filipa Calvão, com os presidentes Inaldo Araújo (IRB) e Durval Ângelo (TCEMG) - Foto: Filipe Pimenta

De volta às origens

O congresso internacional nasceu em Belo Horizonte, em 2015, e se consolidou como espaço de debate sobre o papel do Controle Externo na melhoria das políticas públicas.

"Foi aqui, sob a liderança visionária do então presidente do TCEMG, hoje conselheiro jubilado, Sebastião Helvecio, que nasceu o primeiro grande encontro internacional voltado à relação entre controles e políticas públicas", relembrou Durval Ângelo. "Aquele encontro, em 2015, irradiou para todo o país uma nova compreensão sobre os tribunais de contas. Uma compreensão mais humana, mais constitucional e mais conectada às necessidades reais da população", acrescentou.

Com a contribuição do Instituto Rui Barbosa (IRB), da Atricon, da academia, dos órgãos de controle da sociedade civil, foi também consolidada, gradualmente, a percepção de que Controle Externo não pode se limitar à análise de procedimentos, mas sim alcançar resultados de entrega à sociedade.

“O IRB tem sido um protagonista nessa transformação do controle público há 52, graças a ações abnegados de membros e servidores que não se cansam de sonhar. Aproveito para homenagear todos eles, todos na pessoa do conselheiro Sebastião Helvecio [atualmente, vice-presidente de Desenvolvimento e Políticas Públicas do IRB], o homem à frente do seu tempo e o idealizador deste congresso”, reforçou o presidente do instituto, conselheiro Inaldo Araújo.