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Em situação de alerta, Minas Gerais é o estado campeão de decretos de anormalidades

23/07/2026

Minas Gerais vive em regime de alerta - imagem gerada pela IA

Minas Gerais, como destacado na primeira reportagem desta série, é a unidade da federação com o maior número de municípios em situação de vulnerabilidade a desastres. São 283 municípios nessas condições, o que representa 33,17% das 853 cidades mineiras. A conjugação de fatores geográficos e geológicos com a intensificação de fenômenos associados às mudanças climáticas desenha, portanto, um quadro de permanente alerta.

Se a luz de perigo iminente está sempre acionada, o Estado precisa estar preparado. Mas o modelo que prevalece é o da reação, fenômeno classificado pela literatura científica como a institucionalização de uma gestão pública puramente reativa. O executivo estadual opera, na maioria das vezes, como um balcão de emergências modelo de atuação em que o Estado aparece “depois que o leite foi derramado”.

Uma das consequências desse cenário é o surgimento de uma “indústria de decretos de anormalidades”. Dados apurados pela auditoria operacional do TCEMG indicam que Minas Gerais é, entre as unidades da federação, o campeão de decretos de anormalidade, ato do poder executivo (prefeitos, governadores ou presidente) quando uma crise humanitária ou ambiental acontece. 
 
 

Entre 2015 e 2025, o Estado registrou 4.906 protocolos de desastres, que não obrigatoriamente resultaram em decretos de anormalidade, mas que demonstram o tamanho do problema em Minas Gerais. Nesses 10 anos, a média alcançada foi de 1,34 protocolo de emergência emitido ao dia.

Os 4.906 desastres provocaram 278 mortes, 377,6 mil desalojados e desabrigados, 23 mil feridos e enfermos, afetando diretamente 9,19 milhões de pessoas. Os municípios com o maior número de óbitos foram Belo Horizonte (23), João Monlevade (19) e Novo Cruzeiro (16).
 
Governador Valadares, Raposos e Manhuaçu foram as cidades mineiras com o maior número de desabrigados e desalojados, registrando, respectivamente, 44 mil, 20 mil e 14 mil. Já as populações mais afetadas foram dos municípios de Uberaba (340 mil), Januária (284 mil) e Minas Novas (183 mil) – de acordo com dados do Atlas Digital de Desastres no Brasil
 

No ritmo da emergência

O orçamento público deveria ser gerido sob a lógica da previsibilidade e do controle para evitar desperdícios e corrupção, como recomenda o Tribunal de Contas da União (TCU). Mas em situações de calamidades, o tempo padrão de um processo administrativo utilizado para aquisição de produtos e serviços é incompatível com a urgência de um desastre ambiental ou de uma crise sanitária. Se o gestor depender de prazos normais para comprar remédios, contratar barcos de resgate ou reconstruir uma ponte, a demora pode causar mortes e danos irreversíveis.

Nesses contextos faz todo sentido renunciar aos procedimentos administrativos usuais. O próprio TCU esclarece que a ocorrência de emergência ou calamidade pública autoriza o poder público a dispensa de licitação. O órgão de controle orienta, em seu portal, que a “contratação deve servir somente para a aquisição dos bens necessários ao atendimento da situação emergencial ou calamitosa e para as parcelas de obras e serviços que possam ser concluídas no prazo máximo de um ano (antes, na vigência da Lei 8.666/1993, o prazo era de 180 dias), contado da data de ocorrência da emergência ou da calamidade”.

Mas a “normalização da anormalidade” é um problema. De acordo com o auditor do TCEMG e supervisor do relatório final da auditoria operacional que buscou verificar a atuação do Estado de Minas Gerais na gestão de risco de desastres ligados a chuvas extremas, Ryan Brwnner Pereira, nas deficiências de planejamento, recursos que deveriam financiar políticas estruturantes de longo prazo (como habitação, saneamento e transição climática) são drenados de forma emergencial e contínua para ações de resposta imediata e reconstrução. “E, em Minas Gerais, estado que apresenta histórico de desastres e lidera o ranking de municípios em situação de vulnerabilidade e elevada ocorrência de protocolos, essa drenagem é ainda muito mais expressiva”, alerta.

Os auditores do TCEMG constataram que Minas Gerais sofre com a ausência de normativos legais e operacionais claros que regulem a engrenagem envolvida em situações de crise. O pior achado, contudo, reside na tecnologia, ou melhor, na ausência dela: o Estado simplesmente não possui um mecanismo informatizado próprio e integrado capaz de consolidar, registrar e monitorar em tempo real esses decretos municipais, os repasses estaduais efetuados e a execução das ações na ponta. “Sem um sistema centralizado, o acompanhamento se perde em gavetas e planilhas isoladas, comprometendo a transparência e abrindo margem para a ineficiência administrativa”, complementa Ryan Pereira.

De acordo a pesquisadora associada a projetos do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), Luciana Londe, a falta de transversalidade nas políticas públicas brasileiras faz com que os municípios falhem no planejamento urbano básico. E quando a Defesa Civil opera de forma isolada, como diagnosticado pela auditoria do TCEMG, “a gestão do risco não se institucionaliza na prefeitura, empurrando a burocracia local para a ‘rotina do combate a incêndios’ literais e figurados.”

Um dos exemplos dessa “crônica de tragédias anunciadas” é salientado por Bruno Milanez, professor no departamento de Engenharia de Produção da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). O pesquisador acompanha de perto a situação da segurança de barragens de rejeitos minérios no estado - Minas Gerais é o estado que concentra sozinho mais barragens do que a soma de outros 16 estados brasileiros de acordo com boletim do Observatório de Barragens de Mineração da UFMG.

O que preocupa ainda mais é a associação de barragens de rejeitos de minério, sobretudo aquelas em situação de emergência, com o cenário de mudanças climáticas, alerta Bruno Milanez. “Em Minas Gerais temos 27 barragens de rejeitos de mineração em níveis de emergência – são seis em nível de alerta, 15 em nível 1, cinco em nível 2 e uma em nível 3. Muitas barragens não consideram a possibilidade de ocorrência dos eventos climáticos severos. E se temos barragens em níveis críticos, a situação ainda é mais preocupante”, complementa. 

Falta conexão

O caminho percorrido pelo dinheiro público para socorrer as vítimas parece um labirinto. A segunda vertente do relatório do TCEMG disseca a governança financeira e a coordenação interinstitucional do Sistema Estadual de Defesa Civil (SEDC). Embora o lema governamental crave que "Defesa Civil somos todos nós", na prática, isso não acontece.

O desenho institucional que deveria interconectar o Gabinete Militar do Governador (onde atua a Cedec), o Corpo de Bombeiros (CBMMG) e o Sisema (Secretaria de Estado do Meio Ambiente, Fundação Estadual do Meio Ambiente e Instituto Mineiro de Gestão das Águas) sofre com graves fragilidades de articulação. Os auditores identificaram barreiras na comunicação e no compartilhamento de bases de dados georreferenciadas sobre as áreas de risco.

Essa desconexão cobra um preço alto. O relatório do TCEMG aponta que a falta de percepção apurada sobre a severidade climática e a desorganização administrativa fazem com que uma parcela massiva dos recursos inicialmente planejados para a gestão de riscos deixe de ser efetivamente utilizada.

No que se refere ao desempenho orçamentário, 62,85% do recurso planejado inicialmente para as ações de gestão de risco e de desastres foram efetivamente utilizados, o que o pesquisador e engenheiro Gerardo Portela [um dos principais cientistas e consultores brasileiros especializados em Gerenciamento de Riscos e Engenharia de Segurança, da COPPE/UFRJ] chama de desperdício, pois não há entendimento das autoridades sobre o grau de severidade desses fenômenos.

“A percepção de risco no Brasil não é algo muito desenvolvido culturalmente. Nossa cultura de segurança ainda é muito primitiva. Por não percebermos a gravidade da situação, muitas vezes deixamos de investir aquilo que já não é muito e deixamos de avançar nas salvaguardas para esse tipo de fenômeno [...]", indica o pesquisador da UFRJ.

A consequência direta cai sobre os 283 municípios mineiros mapeados em situação de risco alto ou muito alto. Sem saber com precisão de onde vêm e para onde vão os fluxos financeiros de socorro, o controle social torna-se praticamente inviável.

Na quinta e última reportagem da série Minas em Risco, serão apresentadas as recomendações feitas pela equipe de auditoria operacional do TCEMG e publicado o relatório na íntegra.