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Empenhos em shows com artistas de renome nacional equivalem a 33% de todo o orçamento destinado à cultura

02/06/2026

Dados estão registrados no painel Panorama Municipal de Despesas, divulgado pelo Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG) a partir de informações disponíveis no Sistema Informatizado de Contas dos Municípios (SICOM)

Capelinha, Crucilândia, Ipaba, Ipatinga, Nazareno, Peçanha, Sacramento, Santa Bárbara do Tugúrio, São João da Ponte, São João do Oriente, São Vicente de Minas e Várzea da Palma. Juntas, essas 12 cidades empenharam, em 2024 e 2025, R$56.656.276,13 para a cultura. Os dados estão registrados no painel Panorama Municipal de Despesas, divulgado pelo Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG) a partir de informações disponíveis no Sistema Informatizado de Contas dos Municípios (SICOM).

Na lista dos destinos dos recursos públicos estão a difusão cultural - área para a qual foram destinados 85,08% do total empenhado - 6,85% para o patrimônio histórico, 7,81% para atividades de gestão, 0,06% para o turismo e o residual em serviços. Esses são dados também extraídos do “Panorama Municipal de Despesas”, painel acompanha a projeção e o ordenamento de despesas dos municípios mineiros desde 2014.

No mesmo período, ou seja, em 2024 e 2025, R$18,9 milhões, também bateram às portas de atividades que também estão sob o grande guarda-chuvas da cultura. Esse recurso foi programado para financiar shows musicais com artistas de grande projeção nacional nas mesmas 12 cidades mineiras. De volta ao universo dos números, o valor previsto para shows correspondente a 33,43% do orçamento previsto para a pasta da cultura em todos os 12 municípios.

Recursos empenhados em shows correspondem a um terço dos valores destinados para a cultura

Tensão fora dos palcos

Há uma perspectiva que coloca frente a frente cultura e entretenimento. De um lado, existem argumentos que grandes shows de artistas nacionais, principalmente em pequenas cidades, geram forte apelo popular e retorno econômico imediato. Mas há divergências, que concentram críticas por considerar que eventos dessa natureza drenam recursos que deveriam financiar políticas culturais contínuas, como bibliotecas, patrimônio histórico e artistas locais.

A tábua de argumentos a favor ainda indica que shows atraem turistas, movimentam o comércio local (hotéis, restaurantes, vendedores ambulantes) e garantem o direito ao lazer de populações do interior que não têm acesso aos grandes centros urbanos. O contra-argumento é que cachês milionários consomem quase a totalidade do orçamento anual da cultura do município em uma única noite. O impacto é efêmero e o dinheiro sai da cidade, indo para grandes produtoras e artistas que já estão consolidados no mercado fonográfico nacional.

As diretrizes nacionais focam na descentralização e na transformação da cultura em uma política de Estado contínua, estruturada principalmente por repasses federais a estados e municípios. O Ministério da Cultura argumenta a favor do fim da dependência de grandes eventos sazonais por meio da consolidação de recursos perenes. Na prática, isso ocorre por meio de programas como a Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e outras ferramentas descritas na Cartilha Parlamentar do Ministério da Cultura.

De acordo com a Unesco, que lidera em nível mundial um movimento para que a cultura seja considerada um pilar de desenvolvimento humano e econômico sustentável, são necessárias reformas institucionais que protejam os recursos culturais locais das oscilações do mercado e de interesses políticos de curto prazo.

Na contramão

A decisão de apostar em shows milionários em um contexto de orçamentos apertados (onde a cultura representa meros 0,99% e o saneamento 1,34%), como revela outro painel produzido pela unidade técnica do TCEMG - que expõe o panorama de despesas dos 853 municípios mineiros -, demonstra que as administrações municipais não têm seguido a trilha da economicidade e efetividade ou investido em ações estruturais e contínuas. Na prática, as prefeituras têm seguido outro caminho: apostado em big shows, de alto custo e retorno efêmero. 

A auditoria dos contratos de shows revela ainda que a harmonia orçamentária é fortemente alterada, principalmente nos pequenos municípios. Como o mercado de grandes shows artísticos impõe um "piso" de preço alto (cachês de R$ 300 mil a R$ 500 mil por artista nacional), o gestor de uma cidade pequena realiza remanejamentos orçamentários agressivos, asfixiando funções essenciais e de baixa participação, como urbanismo (8,73%) e assistência social (2,79%).

Cidades como Santa Bárbara do Tugúrio e São Vicente de Minas dedicaram individualmente valores na casa de R$ 1,9 milhão a R$ 2,1 milhões com shows. Esse montante, ao ser gasto em poucos dias, equivale ou supera o orçamento anual inteiro que todo o grupo de 12 cidades destina ao saneamento, por exemplo.

Em 2024 e 2025, os 12 municípios informaram, por meio do SICOM, que pretendiam aplicar R$5,7 bilhões em diversas políticas públicas. A listra traz o descritivo de recursos para a saúde, educação, urbanismo, transporte, assistência social, urbanismo, saneamento, cultura, agricultura, entre outras áreas. Essas áreas, denominadas “funções” no “Panorama das despesas dos municípios mineiros”, informam as prioridades das administrações. Em 2024 e 2025, estavam previstos para a cultura R$56.656.276,13, o que representa 0,99% do total de despesas empenhadas. 

Motivação

A fiscalização realizada pelo Tribunal foi motivada pelos dados do painel "Shows artísticos municipais", que revelaram um gasto de cerca de R$ 940 milhões pelos municípios mineiros com eventos festivos entre 2020 e 2024. Diante do montante revelado, surgiram questionamentos - da sociedade e dos órgãos de controle - sobre a grande variação nos preços dos cachês, a real capacidade financeira das prefeituras contratantes e a moralidade da alocação de recursos públicos nessas atividades. Com foco nas diretrizes da Lei nº 14.133/2021, o trabalho buscou auditar a regularidade e a economicidade dessas contratações frente às restrições fiscais locais.

O pilar dessa lei para analisar os shows artísticos é o artigo 74, inciso II, que trata da inexigibilidade de licitação. A lei reconhece que é impossível realizar licitação para escolher um show, pois cada artista é único. No entanto, a norma exige expressamente que a contratação seja feita diretamente com o profissional ou por meio de um empresário exclusivo. O TCEMG fiscalizou se os intermediários possuem contratos de exclusividade legítimos ou se são apenas atravessadores pontuais, o que é ilegal.

Entre 2020 e 2024, por exemplo, os artistas mais demandados por 80 prefeituras em Minas Gerais foram: Eduardo Costa, Diego e Victor Hugo, Guilherme Silva, César Menotti e Fabiano, Leonardo, Fernando e Sorocaba. O montante total empenhado foi R$27 milhões. Os municípios que lideram a lista são Nova Lima, Itabirito, Barbacena, Conceição do Mato Dentro, Ituiutaba e Brumadinho. 

A série “Festança com o Orçamento Público” procurou ir além das planilhas para revelar o impacto concreto das escolhas orçamentárias feitas por algumas prefeituras mineiras. O cruzamento de dados fiscais, indicadores econômicos e contratos de shows permitiu dimensionar como gastos festivos podem comprometer a capacidade de investimento, principalmente de cidades pequenas, em áreas essenciais e permanentes.

O trabalho jornalístico buscou, a partir de relatório técnico produzido pela equipe de auditorias do TCEMG, contextualizar a realidade financeira desses municípios, ouvir os sinais emitidos pelo órgão de controle e demonstrar que transparência, planejamento e responsabilidade fiscal são elementos inseparáveis da boa gestão pública. Em um cenário de recursos limitados e demandas sociais crescentes, a discussão levantada pela fiscalização do TCEMG ultrapassa os palcos e alcança uma pergunta central para a administração pública: quais prioridades devem, de fato, ocupar o centro do orçamento municipal?

Acesse as outras reportagens da série: Série de reportagens do TCEMG mostra como shows engolem verbas de serviços essenciais em Minas, Farra no orçamento público: falta recurso para escolas, mas sobra para espetáculos e Pequenas cidades, custos gigantes: empenhos com shows artísticos pressionam o orçamento de municípios de pequeno porte.

Acesse também o relatório produzido pelos técnicos do Tribunal e o painel "Shows artísticos municipais", que mapeou eventos festivos entre 2020 e 2024 realizados pelos municípios do estado.