Siga-nos nas redes sociais:

Acessibilidade

AUMENTAR CONTRASTE

DIMINUIR CONTRASTE

Escalada da violência contra crianças em Minas Gerais preocupa: 95% dos municípios não têm protocolo para atender vulneráveis

09/10/2026

Imagem ilustrativa - IA

A violência contra bebês e crianças de até 4 anos em Minas Gerais é alarmante, registrando um aumento proporcional de 420% em 14 anos (2010 – 2024). Um cruzamento entre dados demográficos do IBGE e do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan) revela que a taxa de notificações saltou de 37,8 para cada 100 mil crianças em 2010 para 196,7 para cada 100 mil em 2024.

O Relatório Final da Auditoria Operacional do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG) sobre a primeira infância revela um cenário que auxilia a compreender a escalada desses dados. De acordo com o relatório, 84,71% das prefeituras mineiras sequer possuem um plano municipal para estruturar a rede de proteção à primeira infância.

O cenário de violência na primeira infância em Minas Gerais é ainda mais grave porque a explosão das notificações ocorreu em sentido inverso à curva demográfica do estado. Enquanto a transição demográfica e a queda na taxa de fecundidade mapeadas pelo IBGE encolheram a base de crianças de zero a quatro anos no estado — de 1.276.866 em 2010 para cerca de 1.120.000 em 2024 —, o volume absoluto de agressões notificadas saltou de 483 para 2.203 casos no mesmo período.

O aumento das notificações é, certamente, um agravamento real e severo da vulnerabilidade nos lares mineiros, deixando em evidência o tamanho do desamparo de um contingente humano mais visado e desprotegido diante da omissão de políticas públicas. Neste quadro, a ausência de redes de proteção é um fator de agravamento direto da violência, funcionando como um catalisador para a impunidade e para a perpetuação de agressões.

Articulação falha

A rede de proteção à primeira infância em Minas Gerais enfrenta uma falha de articulação entre saúde e assistência social. É o que informa o resultado da auditoria do TCEMG, ao constatar que, de 678 municípios avaliados nesse quesito, aproximadamente 96% (650) não possuem protocolos formais para encaminhar gestantes e crianças vulneráveis entre as unidades de saúde e os serviços de assistência social.

A auditoria, realizada entre abril de 2025 a junho de 2026, teve como objetivo verificar a situação da primeira infância no contexto dos programas de visitação domiciliar e Estratégia Saúde da Família (ESF).

A avaliação combinou: envio de questionário eletrônico aos 853 municípios; entrevistas com gestores/as estaduais e municipais, agentes comunitários de saúde (ACS); visitas técnicas presenciais em 12 municípios; além da análise de planos, normas, atas, programas, mecanismos de monitoramento e instrumentos de planejamento.

O protocolo é importante porque define o que deve acontecer quando uma equipe identifica uma família em situação de risco. Sem regras claras, o encaminhamento pode depender de contatos informais entre profissionais, da iniciativa individual de servidores/as ou da disponibilidade de cada serviço.

Fragilidades

A auditoria também aponta que 60% desses 678 municípios não possuem planejamento para integrar a Estratégia Saúde da Família, as Unidades Básicas de Saúde e os Centros de Referência de Assistência Social (CRAS).

Outro indicador revela a fragilidade da formação conjunta: cerca de 80% dos municípios não oferecem capacitação integrada entre saúde e assistência social. O relatório registra ainda o índice de 79,06% das equipes de saúde atuando sem capacitações integradas sobre a primeira infância.

A falta de integração, conforme o relatório, pode provocar dois tipos de problema: a duplicidade de atendimento, quando diferentes serviços fazem o mesmo trabalho; ou a omissão, quando nenhum órgão assume a responsabilidade pelo acompanhamento da família. Para a população, isso significa que uma criança identificada com atraso no desenvolvimento, por exemplo, pode não ser encaminhada de forma rápida para avaliação médica, acompanhamento social ou atendimento especializado.

“Os Agentes Comunitários de Saúde (ACS) relataram encaminhamentos realizados de forma informal e sem contrarreferência, comprometendo a continuidade do cuidado e a integralidade das ações”, conforme consta no documento. Por isso, o Tribunal entende que o monitoramento recomendado às secretarias contribuirá para a elaboração e disseminação da orientação técnica aos municípios, a adoção de protocolos com fluxos integrados e mecanismos de contrarreferência e, assim, “aprimorar a articulação intersetorial das políticas públicas direcionadas à primeira infância, fortalecendo os mecanismos de coordenação integrada”.

Clique aqui para acessar o relatório na íntegra.