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Novas lideranças, mesmo propósito: encontro celebra mudança de gestão do Jus-Povos

09/09/2026

Instiuições se unem em prol da proteção dos povos originários e quilombolas - Foto: Veronica Manevy/TCEMG
No dia 8 de agosto, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) sediou a cerimônia de posse da presidência e da vice-presidência do Jus-Povos. As novas lideranças passaram a ser exercidas, respectivamente, pela desembargadora Shirley Fenzi Bertão e pelo presidente do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG), conselheiro Durval Ângelo.
 
Segundo o presidente Durval Ângelo, empossado para a vice-presidência do Jus-Povos, a missão agora é dar continuidade ao planejamento já consolidado pelo comitê, unindo esforços também com o órgão de controle externo, para que ele esteja cada vez mais próximo das comunidades tradicionais e dos povos originários de Minas Gerais.
 
“É uma dívida social enorme, e esse trabalho de aproximação é uma forma de reduzirmos essa dívida e mostrarmos que, hoje, os poderes públicos estão ao lado daqueles que foram os verdadeiros donos desta terra e que ainda são credores de reparações sociais, políticas e econômicas.”
 
Conselheiro Durval Ângelo assume vice-presidência do Jus-Povos - Foto: Veronica Manevy/TCEMG
 
A solenidade reuniu representantes das dez instituições que integram o comitê, incluindo o ex-presidente do Jus-Povos, desembargador federal Vallisney de Souza Oliveira, e o presidente do Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF-6), desembargador federal Ricardo Machado Rabelo.
 
Ao encerrar sua gestão à frente do comitê, Ricardo Machado Rabelo agradeceu às instituições e comunidades que contribuíram para a construção do trabalho desenvolvido pelo Jus-Povos.
 
“Agradeço a todos que contribuíram para essa construção e, especialmente, às comunidades que receberam o Comitê e compartilharam suas histórias, seus conhecimentos e suas necessidades. Que possamos seguir juntos, fortalecendo a escuta, o diálogo e a cooperação, e transformando esse trabalho em ações cada vez mais concretas para a garantia dos direitos dos povos e comunidades tradicionais.”
 
Alexandre Pataxó, liderança da APOINME (Articulação dos Povos e Organizações Indígenas do Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo), explicou que o Jus-Povos tem sido um projeto de grande relevância para os povos indígenas de Minas Gerais.
 
“É uma novidade para nós, porque, durante muito tempo, a Justiça para os povos indígenas foi apenas aquela Justiça julgadora, uma Justiça distante. Hoje, eu vejo que os povos indígenas estão mais próximos de realizar a Justiça que sempre sonharam. É um projeto que tem aproximado as comunidades das instituições e também levado suas demandas até elas, que passam a compreender melhor a realidade dessas pessoas.”
 
Líder da APOINME, Alexandre Pataxó, celebra mais um passo em direção ao direito à justiça para todos - Foto: Veronica Manevy/TCEMG
 
Entre as demandas mais recorrentes, Alexandre Pataxó destacou questões relacionadas ao acesso à saúde, à educação e ao apoio às manifestações culturais. Ele também ressaltou as reivindicações ligadas à demarcação de territórios indígenas, que não são de competência do Estado, mas que podem contar com o apoio de instituições parceiras na articulação e no fortalecimento dessas pautas. Outra preocupação destacada é a proteção territorial, diante do avanço de empreendimentos sobre os territórios indígenas em Minas Gerais, incluindo atividades minerárias.
 
Ao final da cerimônia, a nova presidente do Jus-Povos, desembargadora Shirley Fenzi Bertão, destacou que assume uma agenda já pactuada, com diretrizes e objetivos consolidados, além da responsabilidade de dar continuidade ao trabalho que vem sendo construído coletivamente. Com 11 anos de magistratura e 25 anos de atuação no Ministério Público Estadual, ela reforçou que a atuação integrada entre as instituições é imprescindível para o sucesso do projeto.
 
“A fragmentação institucional pode ser, ela própria, uma forma de negar direitos. As comunidades não enxergam competências, atribuições ou instâncias. As comunidades enxergam o Estado brasileiro. É a partir dessa visão que devemos, diariamente, procurar aprimorar cada vez mais nosso papel na efetivação dos direitos. Dessa forma, seguindo os ensinamentos de Nêgo Bispo, esperamos que este comitê possa confluir e caminhar sempre ao lado dos povos e comunidades tradicionais.”
 
Shirley Fenzi Bertão também afirmou que todas as ações do comitê serão precedidas de escuta ativa e de consulta livre, prévia e informada aos povos e comunidades tradicionais, ressaltando que esse é um compromisso inegociável.
 
“O nosso compromisso se resume em uma palavra: presença. É sair dos nossos gabinetes, ir ao território, ouvi-los e tentar trazer de volta aquilo que eles realmente precisam. Muitas vezes, a Justiça chega aos territórios para oferecer serviços, como casamentos ou uniões estáveis, sem sequer saber se aquela é a demanda da comunidade. Por isso, essa metodologia de ir primeiro ao território, escutar o que eles precisam e depois retornar, sempre com a permissão deles, é fundamental.”
 
Atual presidente do Jus-Povos, desembargadora Shirley Fenzi - Foto: Veronica Manevy/TCEMG 
 
União que faz diferença
 
O mestre quilombola Antônio Bispo dos Santos dizia que, quando um rio encontra outro rio, ele não deixa de ser rio; passa a ser um rio maior. Reconhecendo o poder e a força do encontro, foi celebrada a nova liderança do Jus-Povos, comitê que apoia os direitos de grupos como indígenas, quilombolas, geraizeiros, ciganos e outras comunidades tradicionais.
 
A iniciativa, criada em 2025 e coordenada pelo Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6), busca mudar o foco da Justiça para um modelo mais preventivo. Em vez de atuar apenas no julgamento de conflitos judiciais, o grupo utiliza instrumentos de conciliação e mediação, sempre atento às particularidades de cada povo e à vasta diversidade populacional de Minas Gerais.
 
O Jus-Povos é composto por 10 instituições:
  • Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF6);
  • Tribunal de Justiça do Estado de Minas Gerais (TJMG);
  • Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG);
  • Tribunal Regional do Trabalho da 3ª Região (TRT3);
  • Ministério Público Federal (MPF);
  • Ministério Público do Trabalho (MPT);
  • Ministério Público do Estado de Minas Gerais (MPMG);
  • Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais (DPMG);
  • Defensoria Pública da União (DPU);
  • Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG).
Essas instituições se debruçam sobre pautas como cidadania, acesso à Justiça e efetivação dos direitos dos povos e comunidades tradicionais no estado. Cada uma, dentro de suas competências e atribuições, oferece serviços voltados à garantia desses direitos.
 
Quando o sistema de Justiça chega onde é necessário e realiza uma escuta ativa das comunidades, deixa de ser uma promessa vazia e passa a ser uma presença reconhecida. Por isso, o objetivo do comitê é promover a escuta ativa, visitando as comunidades para compreender seus problemas locais.
 
Além disso, o Jus-Povos trabalha para priorizar e agilizar processos judiciais envolvendo terras indígenas e quilombolas, em conformidade com a Meta 7 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O comitê também auxilia na emissão de documentos oficiais, como certidões de nascimento com identificação da etnia e da identidade indígena. Essas ações ampliam o acesso à Justiça e fortalecem a garantia de direitos dos povos e comunidades tradicionais em Minas Gerais.
 
Comitê do Jus-Povos reunido no TJMG para celebrar a nova gestão - Foto: Veronica Manevy/TCEMG