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Série de reportagens do TCEMG mostra como shows engolem verbas de serviços essenciais em Minas

28/05/2026

Reportagens produzidas pela Coordenadoria de Jornalismo do TCEMG mostram como shows engolem verbas de serviços essenciais em Minas

Números levantados pelo Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG) acendem um alerta sobre o uso de dinheiro público para realizar shows e grandes eventos artísticos. Entre 2024 e 2025, doze municípios empenharam quase R$ 19 milhões para a contratação de espetáculos, em alguns casos comprometendo parcelas significativas da economia local e do orçamento destinado à cultura.

O relatório técnico da Corte de Contas mineira, elaborado pela Diretoria de Auditoria e Avaliação de Políticas Públicas, identificou indícios de sobrepreço, falhas fiscais e situações em que festas milionárias coexistiam com limitações em áreas essenciais, como educação, saúde e saneamento.

Capelinha, Crucilândia, Ipaba, Ipatinga, Nazareno, Peçanha, Sacramento, Santa Bárbara do Tugúrio, São João da Ponte, São João do Oriente, São Vicente de Minas e Várzea da Palma foram os municípios fiscalizados. No total, as 12 administrações públicas pretendiam destinar juntas R$18.937.624,21 para contratar eventos artísticos. O relatório produzido pela equipe técnica do TCEMG não informa o número total de espetáculos, mas identifica oito atrações artísticas: Brenno & Matheus, João Bosco & Vinícius, Calcinha Preta, Clayton & Romário, Wesley Safadão, Thiago Jhonatan, Gusttavo Lima, Buchecha e Negritude Júnior.

Embora os dados do relatório não mostrem o valor final efetivamente pago após os eventos, o documento revela que o gasto real acabou sendo menor do que o planejado em diversas cidades. Isso ocorreu porque a intervenção preventiva dos auditores conseguiu travar pagamentos suspeitos e forçar a redução de contratos antes que o dinheiro saísse dos cofres públicos.

Gráfico, elaborado em escala logarítmica, apresenta o balanço financeiro da fiscalização

O gráfico, elaborado em escala logarítmica (os espaços entre os números no eixo vertical não são iguais para facilitar a visualização e compreensão) apresenta o balanço financeiro da fiscalização feita pelo Tribunal de Contas de Minas Gerais sobre os shows e eventos nas 12 cidades. Ele mostra três dados principais: os recursos fiscalizados (R$ 18.937.624,21), montante empenhado pelas 12 cidades; irregularidades (R$ 462.785,51); benefício efetivo (R$ 253.995,04), dinheiro que deixou de ser usado.

A fiscalização realizada pelo Tribunal foi motivada pelos dados do painel "Shows artísticos municipais", que revelaram um gasto de cerca de R$ 940 milhões pelos municípios mineiros com eventos festivos entre 2020 e 2024. Diante do montante revelado, surgiram questionamentos - da sociedade e dos órgãos de controle - sobre a grande variação nos preços dos cachês, a real capacidade financeira das prefeituras contratantes e a moralidade da alocação de recursos públicos nessas atividades. Com foco nas diretrizes da Lei nº 14.133/2021, o trabalho buscou auditar a regularidade e a economicidade dessas contratações frente às restrições fiscais locais.

O presidente e conselheiro do TCEMG, Durval Ângelo, durante a sessão plenária da Corte na última quarta-feira (27/5), destacou que o painel, que apresenta a evolução de empenhos com shows pelas prefeituras mineiras, e o relatório elaborado pela equipe técnica identificaram inconsistências em relação a regularidade formal na aplicação dos recursos e, ainda, inversão de prioridades. Durval Ângelo destacou que o alerta emitido pelo TCEMG tem dado resultados. Um deles, segundo o presidente da Corte é uma audiência, que foi solicitada pela Associação Mineira dos Municípios (AMM), que requereu “rigor na apuração na fiscalização”.

TCEMG e AMM vão emitir uma instrução normativa em conjunto para definir padrões, obrigações e proibições para os municípios sobre a realização de shows. Uma instrução normativa vai além de um ofício – que funciona como um aviso -, pois dura por tempo indeterminado, além da IN ter efeito processual imediato e severo: se alguém descumprir o que está nela, pode responder a um processo administrativo e ser punido por descumprir uma norma.

Raio X da questão

A série de reportagens “Festança no orçamento” mostra como pequenas cidades passaram a assumir custos incompatíveis com sua capacidade financeira em busca de promover grandes espetáculos. Em municípios com menos de 10 mil habitantes, os gastos previstos chegaram a representar até 2,7% do Produto Interno Bruto (PIB) local, além de custos per capita superiores a R$ 450 por morador. Em contraste, cidades maiores, embora liderem em valores absolutos, absorvem esses investimentos com impacto proporcional muito menor.

Ao longo de três reportagens, o internauta terá acesso a uma radiografia sobre o impacto econômico e social da política de contratação de shows em Minas Gerais, revelando como decisões administrativas voltadas ao entretenimento podem provocar distorções fiscais e comprometer investimentos permanentes em serviços essenciais para a população.

Os dados também revelam que o problema não está apenas no montante destinado à cultura, mas na forma como os recursos vêm sendo aplicados. Enquanto ações estruturantes, como preservação do patrimônio histórico, turismo e saneamento, recebem parcelas reduzidas do orçamento, uma fatia expressiva das verbas culturais é colocada à disposição para eventos pontuais e de curta duração. Em alguns casos, o Tribunal apontou risco de dano aos cofres públicos e determinou medidas cautelares para suspender pagamentos e rever contratos.

A produção jornalística detalha ainda os efeitos concretos da fiscalização do TCEMG, que levou à redução de valores contratados, retomada de obras públicas e adoção de novas exigências para a contratação de artistas por prefeituras mineiras. O Tribunal passou a exigir pesquisa de preços, comprovação de compatibilidade de cachês com o mercado e maior rigor na formalização dos contratos.