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Representação no serviço público: Simpósio Africanidades debate cultura, reparações e dignidade

09/06/2026

Mesa de debate do Simpósio Africanidades debate cultura, reparações e dignidade - Foto: Vinícius Dias/TCEMG

 O artigo 3º da Constituição Federal estabelece como objetivo fundamental "construir uma sociedade livre, justa e solidária". Mas o que é, afinal, uma sociedade justa? O que significa essa liberdade e quem, de fato, usufrui desses direitos? Foi a partir dessa reflexão que, nesta segunda-feira, 8 de junho, o Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG) sediou o Simpósio Africanidades: Cultura, Reparações e Dignidade. O evento, realizado no Auditório Simão Pedro da Escola de Contas, reuniu especialistas nacionais e internacionais, lideranças religiosas, acadêmicos e representantes de movimentos sociais para uma reflexão sobre justiça social, preservação cultural e direitos humanos.

 
A abertura dos trabalhos foi conduzida pelo presidente do TCEMG, conselheiro Durval Ângelo, que destacou o papel das instituições públicas no fomento a debates que promovam a equidade e o reconhecimento histórico das populações de matriz africana. 
 
"O Tribunal tem que se abrir para a sociedade e para os problemas concretos que ela apresenta. A preocupação não pode ser apenas a questão financeira e o serviço público precisa ter a cara do Brasil: ser colorido e diverso. É isso que significa reparação: um gesto efetivo, uma mudança palpável", afirmou o presidente.
 
Presidente do TCEMG, conselheiro Durval Ângelo - Foto: Vinícius Dias/TCEMG
 
 
A primeira mesa do evento teve caráter institucional e contou com a presença de Joana Gervásio (presidente do Comitê de Diversidade do TCEMG), do professor Marcos Cardozo, de José Carlos Souza (presidente do Movimento Negro Unificado), de Makota Celinha (presidente do Centro Nacional de Africanidade e Resistência Afro-Brasileiro), do padre Cesar Pyscoia (membro do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho), da deputada estadual Andréia de Jesus e de Nadja Lírio (vice-presidente da Rede de Gestores de Cultura de Minas Gerais).
 
Pensando nesse compromisso com a sociedade, destacou-se que o Estado de Minas Gerais conta atualmente com 20% de cotas raciais para concursos públicos (Lei Estadual nº 25.726/2026). O TCEMG destaca-se por possuir uma política de cotas pioneira e abrangente em seus editais de concurso público. O órgão reserva 32% do total de vagas para pretos, pardos, indígenas e quilombolas.
Logo após o pronunciamento, a mediação e a condução das atividades foram realizadas pelo coordenador do Núcleo de Cultura do TCEMG, João Batista Miguel.
 
O simpósio seguiu com uma programação dividida em eixos temáticos. O debate sob o tema "As Reparações Possíveis" trouxe uma perspectiva interdisciplinar com a participação dos convidados internacionais professor José Lingna Nafafe, da Inglaterra, e José Andrés, de Cuba. Somaram-se a eles importantes vozes do cenário nacional e regional, como o professor Marcos Cardozo, José Carlos Souza (MNU) e Lauro Fráguas, do Núcleo de Assessoria às Comunidades Atingidas por Barragens (Nacab).
 
No painel, os debatedores enfatizaram que as reparações devem envolver não apenas as populações impactadas, mas também as empresas e bancos que lucraram com os 350 anos de escravidão. Para eles, os responsáveis por essa riqueza devem participar ativamente do processo, superando a ideia de que apenas cotas ou políticas públicas isoladas bastam para reparar séculos de exploração.
 
A deputada estadual Andréia de Jesus pontuou que um dos passos fundamentais para a reparação é garantir que a população negra ocupe os espaços públicos.
 
"Quando é que podemos passar por essas catracas? Quando é que ocupamos esses espaços de poder? Virar o tabuleiro é necessário", questionou, após pedir a bênção aos mais velhos presentes na plenária.
 
Dando eco a essa necessidade de reconfiguração de forças, Makota Celinha defendeu a necessidade de uma mudança eficaz de postura política.
 
"Não se repara o que se mata; não se consertam as vidas perdidas. Para além da reparação, queremos indenização, debate financeiro e ocupação de espaços. É preciso que se pague pelo que fizeram com os corpos pretos no mundo. O que se faz depois que se descobre que um crime foi cometido? Paga-se. E o Estado tem que pagar pelo que fez com os meus."
 
Jornalista, professora e ativista social, Makota Celinha - Foto: Vinícius Dias/TCEMGNessa perspectiva, a reparação foi defendida como um projeto de refundação nacional, focado no resgate do pertencimento e na superação de narrativas racistas. Para os participantes, o letramento histórico é a chave para a negritude reivindicar seus direitos. Assim, cabe ao Estado adotar a justiça restaurativa, destinando recursos para combater o racismo estrutural e corrigir a sub-representação nos espaços de poder. "Como essas instituições irão julgar as nossas questões se não estamos representados nelas?", provocou a mesa.
 
Na sequência, a terceira mesa discutiu a relação entre "Religião, Reparação e Dignidade". O painel promoveu um diálogo pautado nos direitos humanos, contando com as reflexões de Pai Ricardo de Moura, da deputada estadual Andréia de Jesus, de Clébio Araujo (Universidade Estadual de Alagoas) e do padre Cesar Pyscoia, que debateram o papel das instituições de fé e da espiritualidade na busca por justiça social.
 
Em sua fala, Pai Ricardo defendeu que a sociedade precisa corrigir a forma como se refere à população negra. Ele reforçou que é dever do coletivo desmentir as falas coloniais que negavam humanidade ao seu povo. O líder religioso também destacou que os terreiros são fundamentais no acolhimento e na proteção das pessoas de quilombos e periferias.
 
"Existe o termo braço do Estado, mas nós somos os dedos da humanidade. A dignidade só existe se nós estivermos envolvidos no processo. Tudo o que for feito para mim, sem mim, é contra mim."
 
O encerramento dos painéis ficou por conta do debate "Cultura, Orgulho e Reparações", que focou na potência da identidade cultural como ferramenta de transformação social. As discussões contaram com as contribuições do presidente do Conselho Episcopal Latinoamericano y Caribeño (CELAM) Carlos Francisco Olivero, da cantora e pesquisadora brasileira Aline Calixto, além dos pesquisadores norte-americanos James Early e Eshe Lyndzie Lewis.
 
Após a conclusão dos debates, os participantes reuniram-se para um encontro com Lucero Oliveros, representante oficial da vice-presidência da Colômbia.