Siga-nos nas redes sociais:

Acessibilidade

AUMENTAR CONTRASTE

DIMINUIR CONTRASTE

TCEMG promove debate sobre impactos da mineração no Vale do Jequitinhonha

14/11/2025

Autoridades e movimentos sociais alertam para riscos sociais, ambientais e econômicos da exploração mineral - fotos: Thiago Rios Gomes
O Tribunal de Contas de Minas Gerais (TCEMG) realizou, nessa quinta-feira (13/11), uma roda de conversa para discutir os impactos da mineração no Vale do Jequitinhonha. O encontro, que reuniu especialistas, autoridades públicas e representantes de movimentos sociais, foi coordenado pelo presidente da Corte, Durval Ângelo, e pelo bispo de Araçuaí, Dom Geraldo Maia, conhecido por sua atuação em defesa do meio ambiente.
 
Abrindo o encontro, Durval Ângelo classificou a situação do Vale como uma pauta “urgente e primordial”. Ele lembrou ações já adotadas pelo Tribunal na fiscalização da atividade minerária, como estudos sobre os impactos da mineração na saúde da população, apurações sobre possíveis sonegações da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM), decisões processuais e eventos técnicos que discutem o tema.
 
O conselheiro-presidente reforçou que a atuação do TCEMG precisa manter o foco nas pessoas do Vale do Jequitinhonha, destacando a importância de se preservar a riqueza cultural e ambiental da região — hoje pressionada por grandes empreendimentos minerários.
 
Mediador da roda de conversa, o jornalista Adriano Ventura resumiu o sentimento dos debatedores. “Quando destruímos montanhas e furamos as terras, estamos destruindo vidas”, disse. Ele apontou ainda a necessidade de se refletir sobre a relação entre mineração, crescimento econômico e degradação socioambiental, destacando o papel histórico das lutas sociais no enfrentamento a práticas consideradas agressivas.
 
Já Dom Geraldo Maia apresentou um relato direto da vivência das comunidades do Vale. Falou sobre “sofrimento e dor” causados pela mineração predatória, mencionou riscos de redução da APA Chapada do Lagoão e relatou o aumento da procura por atendimentos hospitalares nos últimos meses. Esse último, reflexo, segundo ele, de impactos ambientais e sociais sentidos pela população.
 
Expansão do lítio é foco de críticas
 
A mineração de lítio — impulsionada pela demanda global por baterias — esteve no centro de diversas falas. A deputada estadual Bella Gonçalves afirmou que “vivemos um cenário de terra arrasada”, em referência à intensidade da extração no Vale do Jequitinhonha. Para ela, o envolvimento do TCEMG é fundamental diante dos riscos econômicos e sociais da exploração de terras raras sem regulação adequada.
 
Nascido no Vale, o deputado estadual Marquinhos Lemos destacou a forte aprovação social que empresas mineradoras conseguem construir. Segundo ele, desde sua infância é repetido o discurso de que “o desenvolvimento do Vale está chegando”, argumento que ainda hoje influencia parte da população, apesar dos riscos e impactos que já se acumulam.
 
O professor do Instituto Federal Norte de Minas (IFNMG), João Jacintho, morador de Araçuaí, reforçou essa preocupação, criticando especialmente a operação a céu aberto das mineradoras de lítio. Ele analisou o impacto da atividade minerária sobre modos de vida tradicionais e sobre a integridade dos territórios locais, apontando a disputa entre desenvolvimento econômico e preservação ambiental.
 
Essa percepção foi complementada pela pesquisadora Lauanda Souza, que discutiu o “neoextrativismo” e fez um resgate histórico da exploração mineral na região. Ela criticou a narrativa da transição energética como justificativa para acelerar a corrida pelo lítio e afirmou que movimentos sociais e ambientais têm sido tratados como vilões do progresso.
 
Entre os problemas apontados por ela estão: disputa por terras, escassez de investimentos públicos, dependência econômica da mineração e desigualdade no acesso à água — um dos recursos mais sensíveis do Vale.
 
Marcelo Barbosa, representante do Movimento pela Soberania Popular na Mineração (MAM), comparou a situação atual do Jequitinhonha a grandes tragédias e conflitos já registrados no país, como Carajás e Brumadinho. Ele criticou o poder das mineradoras na região e denunciou tentativas de silenciar movimentos sociais, além do discurso recorrente de que “só a mineração pode salvar a comunidade”.
 
O coordenador do TCE Cultural, João Miguel, encerrou o evento enfatizando a necessidade de fiscalização rigorosa e do debate qualificado para buscar caminhos que protejam as populações locais sem abrir mão da responsabilidade pública diante de um dos temas mais sensíveis de Minas Gerais.
 
Participaram dos debates, ainda, assessores dos deputados estaduais Ana Paula Siqueira e Leninha.
 
Ato Ecumênico
 
Antes dos debates sobre mineração, o Tribunal sediou um ato ecumênico inter-religioso. Líderes de religiões - como católica, evangélica, de matrizes africanas, espírita e budista - se reuniram no Cenáculo do TCEMG, em ato presidido por Dom Geraldo Maia. Veja, abaixo, fotos dos eventos: 
 

Ato Ecumênico