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Tribunal promove reflexões sobre racismo na Semana da Consciência Negra

17/11/2025

Evento sediado no Auditório Vivaldi Moreira, na sede do Tribunal, abriu espaço para troca de ideias sobre a temática - Foto: Daniele Fernandes/TCEMG

A manhã desta segunda-feira (17/11) foi marcada por rica e importante roda de conversa, no Auditório Vivaldi Moreira, do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG), em torno da temática Consciência Negra como Diálogo. 

Representando o presidente Durval Ângelo, o coordenador de Núcleo de Cultura, João Miguel, deu as boas-vindas aos presentes, reforçando a importância do evento que, além de celebrar a Consciência Negra, busca uma troca de ideias, de experiências e de reflexões com o objetivo de promover maior conscientização sobre as formas de racismo entre os presentes, que, nas palavras do diretor, “se não forem afrodescendentes, são afrodependentes".

Na oportunidade, João Miguel ressaltou o marco temporal — os  90 anos do Tribunal de Contas mineiro —  fazendo uma retrospectiva dos eventos que o TCE tem promovido e o trabalho que tem sido feito para aproximar a instituição, não só da comunidade, mas da verdadeira história de Minas Gerais. “É importante que o Tribunal seja um espaço para todos”, concluiu o diretor.

Com mediação da auditora do TCEMG Regina Lopes, a Roda de conversa 1 teve como primeiro convidado o jornalista, especializado em assessoria de comunicação, também apresentador do “Rolê das Gerais” (transmitido pela Globoplay), Zu Moreira. Na oportunidade, ele falou sobre como as comunidades vêm se organizando para lidar com o racismo estrutural e ambiental, citando lideranças como o Sr. Itamar, do bairro Ribeiro de Abreu, que luta para preservar o Ribeirão do Onça, tratado por muitos daquela comunidade como apenas um esgoto. Casos semelhantes também foram citados em Contagem e Venda Nova, onde jardins foram criados para preservar o leito de um córrego, para garantir que ele desemboque no mar.

Para Moreira, o debate sobre a Consciência Negra passa por uma construção coletiva. “Precisamos de todo mundo para devolver o leito desse rio", provocou o jornalista, denunciando que a história do negro foi esquecida, apagada. “É preciso amplificar essa voz esquecida; hoje, temos ferramentas que nos ajudam a lutar contra as desigualdades, construindo uma trajetória diferente das de nossos pais e avós".

Política segregatória 

A segunda a se manifestar foi a defensora pública do Estado de Minas Gerais, Sara Matanzaz, coordenadora da obra coletiva intitulada “Direito Penal dos silenciados”. Sara enfatizou a política segregatória que impregnou nossa construção civilizatória. Para a defensora pública, a polícia no Brasil é estruturada para garantir àqueles capitães hereditários o direito de propriedade.

“Tínhamos um modelo republicano para garantir o direito dos latifundiários”, esclareceu Sara, citando a revolução haitiana e o controle de poder utilizado sobretudo pelo Direito Penal para calar, apagar, neutralizar a força, a arte, a criatividade do negro. “Foram proibidos o batuque, a capoeira, as religiões de matriz africana como forma de coibir que os negros se organizassem”, lamentou a defensora.

Sara Matanzaz ainda falou sobre como as políticas que se dizem de “combate às drogas” têm como alvo os guetos, o preto, o pobre. Projetou no telão a imagem de navios negreiros, explicando a política exterminatória existente nessa travessia do Atlântico, que chegou inclusive a mudar a rota dos tubarões em virtude dos negros que eram jogados ao mar. “A sociedade continua legitimando essas violências”, afirmou.

Também se manifestou, finalizando a Roda de Conversa 1, a psicóloga clínica e social, Dalcira Ferrão, para quem “o racismo não é apenas um ato individual, mas uma estrutura que organiza o acesso à vida, ao trabalho, à moradia, à educação e à saúde". Essas desigualdades cotidianas produzem sofrimento psíquico, estresse crónico ansiedade e depressão.

Estratégias de combate 

Dalcira percorreu pelos diversos tipos de racismo, como o individual ou interpessoal, carregado de preconceito e discriminação praticados por meio de xingamentos, agressões, atos de ódio; racismo institucional, quando as instituições (estado, escolas, empresas, forças policiais) produzem e reproduzem práticas discriminatórias; racismo estrutural, lógica histórica que sustenta a sociedade brasileira desde a colonização, naturalizando privilégios e exclusões; o racismo recreativo, que se traduz com expressões de piada e humor; e, ainda, o internalizado, quando a pessoa absorve o discurso racista e passa a duvidar de seu próprio valor.

Dalcira Ferrão citou estratégias de combate a essas condutas racistas, como a educação, as políticas públicas, as cotas raciais que promovem a inclusão racial. “Cuidar do corpo, da mente e da comunidade é estratégia de sobrevivência e de afirmação”, garante a psicóloga, tendo acrescentado que o fortalecimento de redes de apoio e acolhimento é um dos pilares do cuidado coletivo; “ são estratégias que constroem pertencimento e segurança emocional, concluiu.

A manhã ainda teve a Roda de Conversa 2, com a mesma mediadora (Regina Lopes), mas, desta vez, com a participação da doutora em Ciências Criminais e servidora do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG), Gabriela Machado; do doutor e mestre em Ciências Sociais, padre Mauro Luiz da Silva; e do dançarino, ator, diretor, produtor cultural e mestre de capoeira angola, Gercino Alves Batista.