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Tribunais de Contas precisam ser capazes de avaliar a efetividade das políticas públicas

22/05/2026

Aproximadamente, oito mil quilômetros separam Barcelona, na Espanha, de Luanda, capital da Angola. Mas as duas Cortes de Contas, apesar da distância, "falam a mesma língua"

Aproximadamente, oito mil quilômetros separam Barcelona, na Espanha, de Luanda, capital da Angola. A distância, que percorrida por via terrestre demanda uma média de 126 horas, praticamente inexiste quando miramos as experiências dos Tribunais de Contas de Angola e de Barcelona. As duas Casas de Contas estão, praticamente, lado ao lado quando está em questão a reflexão sobre missão de Tribunais de Contas: o horizonte é se a atuação desses órgãos é capaz de melhorar a vida das pessoas.

Dolores Genaro Moya, conselheira do Tribunal de Contas da Espanha, participou do terceiro dia do X Congresso Internacional de Controle e Políticas Públicas, realizado em Belo Horizonte, entre 18 e 22/5, e promovido pelo Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG) e pelo Instituto Rui Barbosa (IRB). Ela proferiu a palestra “Avaliação de políticas públicas para melhorar a vida dos cidadãos: a experiência do Tribunal de Contas da Espanha”, mediada pelo presidente do Conselho Nacional de Presidentes dos Tribunais de Contas (CNPTC) e do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro (TCMRJ), Luiz Antônio Guaraná.

O ponto de partida da apresentação de Dolores Genaro Moya foi um slide com as imagens dos prêmios Nobel de Economia de 2019: o indiano-americano Abhijit Banerjee, a francesa Esther Duflo e o americano Michael Kremer. O trio transformou a economia do desenvolvimento ao dividir o problema da pobreza global em questões menores, mais específicas e gerenciáveis. Os testes deles demonstraram, por exemplo, que oferecer remédios gratuitos contra parasitas e investir em tutores focados para alunos com dificuldades trazem resultados muito mais expressivos para a saúde e educação infantil do que apenas distribuir livros didáticos adicionais.
 
Os pesquisadores foram apresentados como uma espécie de metáfora para abordar a missão e o papel institucional dos Tribunais de Contas. Para Dolores Moya, não basta focar em auditorias ou fiscalizações que demonstrem se há ou não incorreções em relação ás normativas e leis: é necessário ir além e descobrir como uma política pública é capaz de afetar positivamente ao coletivo que se destina.
 
A presidente do Tribunal de Contas de Barcelona relatou que a Casa espanhola alterou os parâmetros para avaliar a eficácia e eficiência de políticas públicas. Atualmente, quatro são os pilares adotados pelo TCE barcelonense: a) se a política pública é capaz de atuar sobre questões reais; b) se há diálogo entre os gestores e os coletivos afetados na elaboração da política pública; c) se a política é indutora, capaz de melhorar os serviços públicos; e d) se a política incentiva a prestação de contas.
 
Para Dolores Moya, "não basta verificarmos, em nossas fiscalizações, se os procedimentos normativos estão sendo realizados corretamente" - foto Thiago Guará
 
Dolores Moya alertou apresentou “cases” do Tribunal de Contas de Barcelona: na fiscalização de políticas públicas dedicadas ao apoio educativo diferenciado, em 2023 e 2024, que, no Brasil, denominamos de educação especial, e em políticas direcionadas para pessoas em situação de pobreza. Nos dois exemplos, a presidente do Tribunal de Barcelona enfatizou que foi apurado que os benefícios não chegavam ao público-alvo da maneira esperada.
 
“No caso das políticas públicas destinadas às pessoas em situação de pobreza, descobrimos que 68% dos requisitantes não receberam o suporte; 43% esperaram mais de seis meses para receber”, informou. “Não basta verificarmos, em nossas fiscalizações, se os procedimentos normativos estão sendo realizados corretamente. Precisamos ir além: precisamos encontrar indicadores que nos sinalizem e apresentem o real resultados das políticas”, sentenciou.
 
Além das normas
 
Do Tribunal de Contas de Barcelona chegamos à Casa de Contas de Angola. O juiz conselheiro do Tribunal de Contas de Angola, Armindo Jelembi, foi o protagonista da mesa “Controle das Políticas Públicas pelo Tribunal de Contas de Angola”, mediada pela conselheira Rosa Egídia, do Tribunal de Contas do Pará. A apresentação aconteceu logo após a exposição da conselheira Dolores Moya.
 
Segundo Armindo Jelembi, "é necessário articular as ações para assegurar que os recursos sejam bem aplicados” - foto: Thiago Guará
Segundo Jelembi, que se disse encantado por Belo Horizonte, políticas públicas não devem mirar o cidadão, mas a pessoa, pois dessa forma dão conta de uma dimensão ampliada e humanística. “Nós, em Angola, temos buscado auditar sempre numa perspectiva que avalie a efetividade de políticas públicas, indo além da conformidade com as normas”, destacou.
 
O conselheiro angolano relatou que a pratica da fiscalização de contas é recente em Angola, afinal o país obteve independência há 50 anos (11 de novembro de 1975) e há desafios em torno da missão dos Tribunais. “Estamos em busca de legitimidade e enfrentamos resistência dos poderes executivo e legislativo por não termos mandato; ainda, atuamos em um contexto de práticas históricas e socioculturais são distintas. Há regiões em que se admite o casamento de meninas com 12 anos, em outras não se admite o protagonismo feminino, que a mulher tenha capacidade financeira superior aos homens ou que as mulheres trabalhem na agricultura. Encontrar uma norma capaz de lidar com essa adversidade é um desafio”, enfatizou.
 
Armindo Jelembi apresentou “cases” de fiscalização: um deles foi sobre uma política de proteção à primeira infância. “Este é um programa inspirado em uma ação do Tribunal de Contas de Tocantins, e fruto de visitas que delegações de Angola realizaram no Brasil”, informou o conselheiro. Em Angola, são ações desenvolvidas por quatro ministérios.
 
“Controlar e fiscalizar que os fundos públicos utilizados para estes programas sejam coordenados, porque muitas vezes o que acontece é que, por exemplo no Ministério da Ação Social Família existe um programa de apoio às crianças vulneráveis, prestando alimento e outro tipo de assistência; no Ministério da Educação, tem um programa de assistência de merendas. É necessário articular as ações para assegurar que os recursos sejam bem aplicados”, explicou o conselheiro angolano, destacando a necessidade de as Casas de Contas combaterem a corrupção.
 
O conselheiro de Angola acredita que a essencialidade dos Tribunais exige que essas casas atuem fortemente para verificar a efetividade das políticas públicas. Para ele, fiscalizar a aplicação de recursos segundo as normas é necessário, mas é fundamental que se avalie se as políticas públicas alcançam os objetivos pretendidos.