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Por água abaixo: lógica da reação e improviso comprometem prevenção a desastres ambientais

24/07/2026

Equipe responsável pela auditoria operacional elaborou 41 recomendações para aprimorar a atuação das estruturas estaduais - foto: foto: Veronica Manevy/TCEMG

Entre os anos de 2020 e 2024, os recursos empenhados na prevenção de desastres representaram menos de 1,1% do orçamento total do Estado, revela auditoria operacional do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais sobre mudanças climáticas e gestão de riscos de desastres. Para um território onde mais de 1,4 milhão de pessoas (cerca de 10% da população) vivem em áreas suscetíveis a deslizamentos de terra, enxurradas e enchentes, o percentual é considerado insuficiente pela equipe de controle da Casa de Contas mineira.

A avaliação do TCEMG identificou que a máquina pública estadual responsável por atuar nas situações de desastres, ou seja, as estruturas vinculadas à Defesa Civil e ao Sistema de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, atua com foco na reação. O nó central do problema reside em como o orçamento é concebido: o Estado, historicamente, direciona recursos para respostas e recuperação pós-desastre, em detrimento de investimentos em prevenção e mitigação.

O cenário fica ainda mais grave após a equipe da Corte de Contas mineira ter identificado o que o governo estadual rotula como "gasto preventivo". A auditoria constatou que mais de 70% das despesas empenhadas nessa rubrica são, na verdade, despesas correntes — englobando o pagamento da folha de pessoal e a manutenção administrativa de prédios e escritórios. Ou seja, o orçamento para as ações preventivas escoa e fica ainda mais estrangulado.

Para Marcela Viera Rodrigues da Cunha, auditora de controle externo e uma das responsáveis pelo trabalho, o Estado não lida muito com a prevenção e a prevenção é que pode salvar a vidas. “Durante a visita de campo, a gente visitou a área onde houve um deslizamento de terra, na cidade de Ipatinga [no Vale do Rio Doce]. Foi muito triste ver que naquele local havia uma casa e que foi totalmente destruída; uma residência foi levada e não tem mais nada no lugar”, relata.

Cenário de disparidades

“No contexto das mudanças climáticas, há a mitigação, a prevenção, a resposta e a preparação. Quando direcionamos os olhares na auditoria para a prevenção, constatamos que a atuação do Estado é frágil, o que precisa ser aprimorado. O Estado não pode focar apenas em respostas, esperar os desastres acontecerem, para depois agir”, reforça a também auditora de controle externo Taciana Lopes de Souza, outra integrante da equipe.

O orçamento público destinado a ações de prevenção revela um cenário de profunda disparidade entre as pastas do governo estadual, concentrando os recursos em um único braço operacional e expondo apagões financeiros em setores críticos.

O bloco ambiental do Estado (Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, Instituto Mineiro de Gestão das Águas e Fundação Estadual de Meio Ambiente) esteve perto de um zero absoluto em prevenção entre 2020 e 2023, o que é entendido pela equipe técnica do Tribunal de Contas como um grande contrassenso.

O Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam) cuida das águas mineiras, mas passou quatro anos sem empenhar um centavo para prevenir enchentes ou secas extremas. Já a Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam) zerou seus gastos preventivos justamente em 2024.

O Estado joga quase todo o peso financeiro da prevenção nos ombros de uma única instituição: o Corpo de Bombeiros Militar. Embora os Bombeiros façam um trabalho essencial no campo da prevenção (vistorias, treinamentos, queimas controladas), o foco da corporação é dar respostas, não prevenir.

Conta “fecha” no déficit

A escassez de recursos para as obras e projetos infraestruturais é outro achado da auditoria. Essa situação reverbera diretamente na ponta, enfraquecendo a capacidade de resposta dos municípios. Das cidades mineiras que responderam ao Índice de Efetividade da Gestão Municipal (IEGM), 44% declararam não possuir agentes capacitados em defesa civil. O indicador mede a qualidade dos gastos públicos, a eficiência das prefeituras e a efetividade das políticas públicas municipais.

A fragilidade institucional também se espalha pelas 18 coordenadorias regionais de Defesa Civil, as Redecs: seis delas operam sem nenhum diagnóstico de risco, 11 não realizam o levantamento da extensão de danos e sete sequer promovem ações preventivas rotineiras.
 
O preço dessa desestruturação é medido pelo crescimento exponencial das decretações de emergência. O número de reconhecimentos oficiais de anormalidade em Minas Gerais saltou 220% em uma década, passando de 186 ocorrências em 2013 para 466 em 2023, atingindo diretamente 323 municípios. No cenário nacional, entre 2021 e 2025, o estado acumulou sozinho 5.443 decretos registrados no Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2iD), o que representa 15% de todas as notificações do país.
 
A auditoria também lançou luz sobre o apagão tecnológico, o que compromete a proteção dos cidadãos em tempo real. O mapeamento de áreas de risco em território mineiro foi classificado como insuficiente, desatualizado e pouco abrangente. Além disso, a rede de monitoramento meteorológico e hidrológico operada pelo Estado sofre com a escassez de estações de monitoramento e falhas severas de manutenção. 

O reflexo disso está nos canais de aviso: apenas nove dos 853 municípios de Minas emitem seus próprios alertas pela plataforma oficial IDAP, apesar da lei que institui a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil estabelecer que compete primordialmente aos municípios a emissão de alertas à população sobre o risco de desastres.

Para colocar fim no improviso

Responsáveis pela auditoria operacional realizaram análise de documentos, fizeram visitas técnicas e entrevistas e consultaram especialistas - foto: Veronica Manevy/TCEMG

A auditoria apresentou 41 recomendações para tirar Minas Gerais da lógica do “apagar incêndios”, buscando a construção de uma política robusta e permanente de prevenção. O diagnóstico produzido pelo TCEMG indica a necessidade de romper o ciclo de improvisação e resgatar a transparência financeira das verbas destinadas a desastres. Para isso, a Corte recomendou uma reforma imediata na governança do Estado, que deverá ser estruturada em pilares que busquem blindar o orçamento, modernizar o monitoramento climático e reforçar a segurança de barragens.

A primeira grande mudança sugerida passa por uma separação orçamentária clara. O Tribunal propõe a criação de classificações específicas para diferenciar com precisão o que é recurso para prevenção, mitigação, resposta e recuperação, protegendo essas verbas de desvios de finalidade. Paralelamente, o relatório defende a urgência de maior transparência digital por meio do desenvolvimento e da implementação de um mecanismo estadual informatizado e unificado.

Esse sistema seria responsável por registrar e consolidar decretos, monitorar repasses e garantir rastreabilidade total às ações executadas pelo Executivo. Como engrenagem financeira para viabilizar essas frentes, a Corte aponta para a ativação de fundos, recomendando a instituição e regulamentação de um fundo especial exclusivo focado no custeio de ações preventivas e de defesa civil em solo mineiro.

Além disso, é preciso investimento líquido proporcional em obras de infraestrutura, engenharia de drenagem profunda, radares meteorológicos avançados ou contenção estrutural de encostas, ainda que o documento ressalte como avanço a inauguração do Centro de Inteligência em Defesa Civil, utilizando recursos de medidas compensatórias repassadas pela Vale, em decorrência do rompimento das barragens de rejeitos de minérios em Mariana e Brumadinho, ao Ministério Público (MPMG). O Centro integra o sistema monitoramento de barragens do Ministério Público. O objetivo é integrar informações meteorológicas, geológicas e pluviométricas para subsidiar a tomada de decisão dos entes federativos envolvidos e da própria sociedade.

O relatório reitera que os riscos socioambientais em solo mineiro ganham contornos ainda mais dramáticos na Região Metropolitana de Belo Horizonte. As barragens de rejeitos de mineração continuam figurando como uma ameaça latente para a segurança hídrica da capital e de cidades vizinhas. O TCEMG constatou que, embora as legislações vigentes exijam planos de ação eficazes para garantir o abastecimento alternativo de água em caso de novos rompimentos, persistem falhas críticas na implementação dessas salvaguardas.

No campo operacional, o Tribunal recomenda que a Coordenadoria Estadual de Defesa Civil (Cedec) apoie, capacite e forneça incentivos para o fortalecimento das defesas civis municipais. O plano de ação deve prever a criação de uma base de dados georreferenciada e compartilhada sobre áreas de risco, além do aprimoramento imediato dos alertas meteorológicos. Há também a indicação para que o Instituto Mineiro de Gestão das Águas integre sua rede hidrológica com a Agência Nacional de Águas (ANA) e firme parcerias com universidades para modernizar o monitoramento por meio de projetos inovadores.

Recomendações que constam no relatório final da equipe do TCEMG buscam contribuir no aperfeiçoamento da gestão de riscos - foto: foto: Veronica Manevy/TCEMG

O plano do TCEMG também avança sobre o monitoramento climático e a infraestrutura do Estado. Na área ambiental, a recomendação primordial é a integração hidrológica, conectando a rede do Igam com os sistemas da Agência Nacional de Águas (ANA) e do Serviço Geológico do Brasil (SGB). Para modernizar as metodologias vigentes, a aposta está na inovação acadêmica, incentivando o governo a firmar parcerias e convênios com universidades e institutos de pesquisa para validar projetos tecnológicos voltados ao monitoramento hidrometeorológico.

Por fim, em uma das frentes mais sensíveis para a população do estado, as diretrizes apontadas no relatório da auditoria sugerem uma fiscalização rigorosa sobre os rejeitos de mineração. O Tribunal recomenda revisar os critérios de segurança das barragens da mineração e cobrar de forma imediata e eficaz a implementação de planos de abastecimento de água alternativo para a Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH) em casos de emergência.

"Todo o trabalho de pesquisa realizado foi essencial e reflete a prática adotada em auditorias operacionais realizadas pelo TCEMG. As visitas de campo foram indispensáveis para que pudéssemos verificar os problemas diretamente no local. O acompanhamento feito em Itabira e Ipatinga, além das vistorias em Belo Horizonte — nas bacias da Tereza Cristina e do Arrudas —, foi determinante para aprofundar nosso conhecimento sobre o diagnóstico e fornecer um embasamento mais sólido às informações apresentadas”, ressalta a integrante da equipe e auditora de controle externo, Jacqueline Loures.

Acesse, a partir o conteúdo na íntegra do relatório final da auditoria operacional sobre mudanças climáticas: gestão de risco de desastres pelo Estado de Minas Gerais.