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Especialistas do TCEMG alertam para riscos nas contratações de consórcios públicos

27/10/2026


O conselheiro substituto Telmo Passareli (Foto: Veronica Maney)

Planejamento inadequado, falta de fiscalização e exigências que restringem a concorrência podem comprometer a economia esperada com as compras compartilhadas pelos municípios. Esses riscos estiveram entre os principais assuntos discutidos na tarde dessa segunda-feira (26/10), durante o 2º Seminário de Consórcios Públicos, promovido pelo Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG), em Belo Horizonte. O encontro também apresentou experiências de atendimento regionalizado na saúde e uma nova plataforma digital que deverá facilitar o cumprimento das obrigações dos consórcios perante o Tribunal.

Na palestra sobre quarteirização, o conselheiro substituto Telmo Passarelli chamou a atenção para os custos que podem surgir quando um município recorre a um consórcio para contratar serviços que, por sua vez, são executados por empresas terceirizadas. Embora esse modelo possa facilitar a gestão, a existência de intermediários exige cuidados adicionais para que a contratação continue vantajosa.

Segundo Telmo, cada etapa dessa relação pode acrescentar despesas de planejamento, acompanhamento e fiscalização, conhecidas como custos de transação. Se esses valores não forem considerados, a economia que justificou a contratação compartilhada pode não se concretizar.

"Na administração pública não dá pra delegar pura e simplesmente isso para o consórcio. Mesmo que o município faça a adesão, ainda tem o dever de justificar, o dever de fiscalizar", afirmou.

O conselheiro utilizou o gerenciamento de frotas como exemplo. Nesse tipo de contratação, uma empresa pode administrar uma rede de oficinas e fornecedores responsáveis pela manutenção dos veículos municipais. O modelo reduz a necessidade de o município negociar diretamente cada serviço, mas também pode dificultar a comparação dos preços efetivamente praticados no mercado.

Telmo destacou que tabelas de referência nem sempre refletem as diferenças de custo entre regiões, especialmente em municípios menores ou mais distantes dos centros de distribuição. Por isso, defendeu o aperfeiçoamento das ferramentas de pesquisa de preços e o uso de informações mais próximas das transações reais.

Entre as possibilidades apresentadas estão a integração de bases de dados fiscais e o emprego de inteligência artificial para comparar valores de produtos e serviços conforme o local e o momento da contratação. O conselheiro citou iniciativas de fiscalização tecnológica já utilizadas pelos tribunais de contas e ressaltou a importância de fortalecer os controles internos dos próprios municípios e consórcios.

A necessidade de conhecer o mercado e dimensionar corretamente as contratações também foi abordada pelo assessor jurídico do TCEMG Pedro Henrique Magalhães Azevedo. Ao tratar do sistema de registro de preços, ele explicou que a possibilidade de não adquirir todos os itens previstos em uma ata não dispensa a administração de demonstrar como chegou às quantidades licitadas.

Pedro apresentou uma análise de 35 casos envolvendo consórcios públicos, nos quais identificou questionamentos relacionados, entre outros pontos, às especificações técnicas, às exigências de habilitação, às estimativas de demanda e ao agrupamento de itens em lotes.

De acordo com o assessor, quando um consórcio anuncia a intenção de adquirir uma quantidade muito superior à sua necessidade real, o fornecedor pode formular a proposta considerando uma escala de vendas que não se concretizará. A repetição dessa situação tende a fazer com que as empresas incorporem o risco aos preços de futuras licitações.

A estimativa inadequada também pode estimular a busca por adesões de outros órgãos às atas, prática que, em determinadas circunstâncias, favorece o uso dos registros de preços para finalidades diferentes das necessidades que motivaram a licitação.

Outro alerta foi sobre a cobrança para permitir que municípios ou empresas tenham acesso às atas de registro de preços. Pedro explicou que, conforme a jurisprudência apresentada, essa cobrança é considerada irregular, mesmo quando prevista em normas internas dos consórcios. Os custos de manutenção de uma central de compras compartilhadas devem ser financiados por instrumentos apropriados, como o contrato de rateio entre os entes consorciados.

O assessor também chamou a atenção para o uso de atas genéricas em contratações de obras, especialmente quando os projetos necessários à definição dos serviços são deixados para depois da licitação. Nesses casos, a falta de informações sobre as condições de execução pode comprometer a competição e resultar na suspensão do procedimento.

Na definição dos objetos licitados, Pedro defendeu um equilíbrio entre clareza e competitividade. Descrições vagas podem levar as empresas a elevar os preços diante das incertezas, enquanto exigências excessivamente detalhadas podem favorecer um fornecedor específico. "De modo que qualidade e restrição precisam sempre de motivação", concluiu.

 
Fiscalização preventiva identifica falhas antes das contratações


Os problemas apontados pelos palestrantes também aparecem no acompanhamento realizado pela Diretoria de Fiscalização Integrada e Inteligência do TCEMG, conhecida como Suricato.

A auditora de controle externo Carolina MacielA auditora de controle externo Carolina Maciel apresentou casos identificados com o auxílio do Solaris, ferramenta desenvolvida pelo Tribunal para analisar editais de licitação e emitir alertas sobre possíveis irregularidades. Após a análise dos auditores, os órgãos responsáveis são comunicados para que possam corrigir os problemas.

Entre os exemplos, Carolina relatou uma licitação de consórcio que previa a aquisição de computadores de aproximadamente R$ 18 mil por unidade, embora os equipamentos fossem destinados a atividades administrativas cotidianas. Após a atuação preventiva do Tribunal, as especificações foram revistas e o valor por equipamento caiu para cerca de R$ 5 mil, segundo a auditora.

Ela também apresentou situações em que características técnicas de veículos, impressoras e computadores reproduziam especificações de modelos determinados, restringindo a participação de outros fornecedores.

Além do direcionamento de licitações, Carolina destacou três problemas recorrentes: ausência de estudos que comprovem a demanda real dos municípios, utilização do credenciamento fora das hipóteses legais e renovação indevida das quantidades previstas em atas de registro de preços.

A auditora ressaltou que o objetivo da fiscalização preventiva é permitir a correção das falhas antes que produzam consequências para a administração e para a população, reduzindo a necessidade de processos sancionatórios posteriores.
 
Novo portal vai reunir serviços digitais para os consórcios
 
A programação da tarde também trouxe uma novidade para os gestores. O oficial de controle externo Alexandre Pires de Lima apresentou o projeto de substituição do atual Sistema de Gestão de Identidade (SGI) por um Portal de Serviços Digitais do TCEMG, com previsão de disponibilização no primeiro semestre de 2027.

A plataforma deverá concentrar cadastros, acesso a serviços, calendário de obrigações e notificações em um único ambiente. O acesso será feito por meio da conta Gov.br ou de token, eliminando a necessidade de uma senha específica para o sistema.

Os consórcios terão funcionalidades próprias para atualizar dados cadastrais, registrar responsáveis legais e encaminhar documentos exigidos pelo Tribunal. Os registros existentes no SGI serão migrados para a nova plataforma.

Segundo Alexandre, a transição ocorrerá por etapas, com comunicação prévia aos usuários. A integração de outros sistemas, como SICOM e FISCAP, está prevista para fases posteriores.
 
Consórcios apresentam experiências para ampliar o acesso à saúde
 
Além dos debates sobre fiscalização, o seminário apresentou iniciativas que demonstram como a atuação conjunta dos municípios pode ampliar a oferta de serviços públicos.

A secretária executiva do Consórcio Intermunicipal de Saúde dos Municípios da Região dos Lagos do Sul de Minas Gerais (Cislagos), Marivalda Cesário, relatou a descentralização de atendimentos especializados para reduzir os deslocamentos dos pacientes. O consórcio reúne 60 municípios e passou a oferecer exames e consultas em unidades mais próximas da população, inclusive por meio de serviços itinerantes.

Segundo Marivalda, um dos prestadores realizou 800 colonoscopias entre abril e outubro, em unidades fixas e atendimentos descentralizados. Ela também apresentou a ampliação dos serviços oftalmológicos na região, com o objetivo de evitar viagens de pacientes que antes precisavam percorrer longas distâncias para receber atendimento.

Já o secretário executivo do Consórcio Aliança para a Saúde, Diran Rodrigues, apresentou a experiência de uma Unidade de Suporte Intermediário do SAMU na região da Serra do Cipó. O serviço foi estruturado para atender ocorrências em uma área distante dos hospitais, com equipe formada por enfermeiro, técnico de enfermagem e condutor.

A discussão sobre saúde também incluiu os cuidados necessários na contratação de profissionais e insumos. A assessora do Ministério Público de Contas Bárbara Duarte Muzi Machado destacou a importância de fiscalizar a efetiva prestação dos serviços médicos e de registrar, nos estudos preparatórios das contratações, as necessidades específicas de cada município.

Ao longo da tarde, as apresentações reforçaram que a atuação conjunta pode ampliar a capacidade dos municípios de prestar serviços, mas depende de planejamento, fiscalização e critérios claros para que os benefícios esperados cheguem à população.


O asessor Pedro Henrique Magalhães Azevedo