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Pactuação e representatividade entram em pauta em seminário sobre políticas culturais

19/03/2026

Conselheiro-presidente participou da terceira mesa de discussões - Foto: Vinícius Dias/TCEMG

O Núcleo TCE Cultural do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCEMG) deu sequência, na tarde desta quinta-feira (19/3), à programação do Seminário Mineiro "Implementação dos Sistemas Municipais de Cultura". O evento é dedicado à discussão de instrumentos para a consolidação das políticas culturais nos municípios.

A terceira mesa do dia abriu o período da tarde com o tema "Instâncias Participativas e Conselhos Municipais". O debate foi mediado pelo diretor do Sistema Nacional de Cultura (SNC) do Ministério da Cultura (MinC), Lindivaldo Oliveira Junior (Junior Afro).

"Nosso desafio é conversar sobre uns dos componentes mais importantes e fundamentais da estruturação do sistema nacional, que são a participação social e a pactuação entre governo e sociedade", afirmou Lindivaldo. Essa, inclusive, ressaltou ele, foi uma ‘pedra cantada’ pela secretária Roberta Martins (MinC) no período da manhã.

"Os conselhos municipais, estaduais e nacional de Cultura, no âmbito do sistema, são fundamentais como espaços de participação, de diálogo e de pactuação entre governo e sociedade. É esse caminho que a gente tem traçado para estruturar e dar um passo mais adiante no SNC, compreendendo a força da participação social na cultura", enfatizou o mediador.

Conselhos, poder e democracia

O presidente do TCEMG, conselheiro Durval Ângelo, participou das discussões ao lado do diretor de Políticas Culturais de Poços de Caldas, Gustavo Dutra, e a representante do Conecta - Fórum dos Conselheiros Estaduais de Cultura, Aryanne Ribeiro. Na oportunidade, ele apresentou conceitos que levam a um entendimento dos mecanismos de representatividade. "Ao falar em participação, é preciso entender o que é a esfera pública, o que é a responsabilidade que você tem dentro de uma visão republicana. E isso nos remete a dois conceitos: o de poder e o de democracia", pontuou o presidente.

Durval Ângelo citou a etimologia latina que utiliza para explicar a ideia de que o poder – aquilo que você pode fazer, a necessidade do poder, a ideia de um poder como serviço, como bem comum – tem uma dupla face: potestas e potentia. De acordo com o conselheiro-presidente, o potestas diz respeito ao poder legalizado, constituído (prefeitos, secretários, vereadores etc.). E a realidade dos conselhos, por sua vez, se enquadra na outra face, potentia, que representa o poder como possibilidade de ser.

"O poder potentia não existe sem uma ação; só existe se o cidadão participa e influencia as decisões. E a ideia de participação, de instância participativa de um conselho tem que ser, antes de tudo, uma articulação dessas duas faces", ponderou. Com relação à democracia, Durval destacou os cinco grandes fundamentos do Estado Democrático de Direito previstos na Constituição Federal: soberania; cidadania; dignidade da pessoa humana; valores sociais e da livre iniciativa; e pluralidade política.

"A participação [nos conselhos], para ser efetiva, precisa ser qualificada. Ou seja, não basta a presença numérica das pessoas porque o acesso está aberto. É preciso dotá-las de informações e de conhecimentos sobre o funcionamento das estruturas estatais", citou, lendo trechos da obra por ele assinada "Conselhos de Cidadania: exercício de democracia".

Para ser democrático e realmente participativo, concluiu o conselheiro-presidente, um conselho tem que ser representativo; mobilizado e mobilizador; autônomo e soberano, com infraestrutura, recursos financeiros, equipes administrativas e técnicas próprias; deter o maior teor de informações possível sobre a área em que atua, inclusive com acesso a projetos e dados do poder público; e possuir política regular de capacitação dos conselheiros e entidades inscritas.

Planos municipais e desafios federativos

Outras duas mesas foram organizadas na sequência, com os temas "Planos Municipais de Cultura" e "Desafios Federativos para os Municípios, a execução da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) e o Marco Regulatório do Fomento".

Na discussão sobre os planos, o mediador foi o presidente do Fórum de Gestores de Minas Gerais, Janilton Prado. Participaram o diretor de Economia da Criatividade e Articulação Cultural, José Oliveira Júnior, da Secretaria de Estado de Cultura e Turismo (Secult); e a representante do Programa de Agentes Territoriais de Cultura em MG, Marcela Bertelli.

"Sem plano, não há política pública. Apenas ações isoladas. Então, se a gente não busca um sistema que vai unificar tudo que a gente faz lá no território, é em vão, porque a gente vai ficar fazendo separadinho, cada um no seu município", disse o moderador Janilton Prado. "Se a gente não unifica tudo isso, acho que a gente acaba perdendo muitas coisas práticas e que podem acelerar um pouco o nosso processo como gestores", complementou.

Durante as discussões e abertura às considerações da plateia, o coordenador do TCE Cultural, João Batista Miguel, falou sobre aspectos preocupantes influenciados justamente pela falta de planos municipais de cultura. "Nos últimos 25 anos, a gente vem percebendo um aceno muito grande ao declínio de diversas expressões artísticas", avaliou. "Um plano [de cultura] tem que contemplar também – e sobretudo – essa força viva cultural de um município", ressaltou.

Também nesse período, apresentou o coordenador, observou-se ainda que, à medida que expressões artísticas e culturais foram perdendo força, houve também um distanciamento, uma baixa na sensação de pertencimento das pessoas. "Uma cidade, quando tem a sua cultura violada, torna-se uma cidade violenta. Espero que possamos plantar planos e sonhos municipais de cultura para que as nossas cidades não sejam ambientes violentos, e que possam refletir essas questões de prosperidade, dignidade, desenvolvimento de território, social e econômico", reforçou João.

Já para a pauta dos desafios federativos, o TCEMG recebeu a consultora jurídica do MinC, Kizzy Collares, para moderar a mesa. Com ela, estiveram reunidas a diretora-executiva do Cine Theatro Brasil, Eliane Parreiras, e a representante do Instituto Brasileiro de Direitos Culturais (IBDCULT), Ericka Gavinho.

"É um tema bastante instigante e um desafio, não só para os municípios, mas também para a União", afirmou a mediadora. Um dos principais objetivos da mesa, contextualizou Kizzy, foi "conseguir discutir, mapear e buscar caminhos para enfrentar esse grande desafio que é o Pacto Federativo, a relação entre os entes, entre os entes e seus agentes, e a relação de todos esses com os tribunais de contas", encaminhou Kizzy.

As debatedoras abordaram, na sequência, avanços e desafios relacionados à cultura. "Minha grande reflexão é que a gente caminhou muito, mas ainda há um muito a caminhar sobre a definição mais clara das responsabilidades entre os entes federados", pontuou Eliane Parreiras.

Por sua vez, Ericka Gavinho sinalizou que há um desafio em relação aos órgãos de controle, não só os de Controle Externo, mas os de Controle Interno. "A gente precisa avançar para que os gestores públicos de cultura tenham segurança de implementar as legislações disruptivas que a gente tem hoje à disposição do setor cultural", afirmou.

Reforma tributária e orçamento cultural

No encerramento dos trabalhos, o presidente do TCEMG, conselheiro Durval Ângelo, fez um novo chamado aos participantes para a continuidade das discussões, na sexta-feira (20/3), desta vez com o tema "Os Impactos da Reforma Tributária no Orçamento Cultural".

"O grande desafio é desenvolver uma cultura que desperte a consciência crítica, que transforme as pessoas em sujeito da história", disse o conselheiro-presidente, citando o pensamento do filósofo e sociólogo alemão, Jürgen Habermas. "Que a lembrança de Habermas [falecido em 14/3/2026] nos conduza e prepare para o dia de amanhã, que a luta vai ser grande", finalizou.

As atividades de sexta-feira seguem no Auditório Vivaldi Moreira, na sede da Corte de Contas mineira, das 8h às 18h30.


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